O dia veste amarelo
(meu ouro)
e eu visto seu dourado,
o "crush" do dia.
De dia, sou transparência.
A noite veste cinza
(meus restos)
e eu visto seu negrume,
o "dislike" da noite.
À noite, sou segredo.
Verdade?
Faz zero grau
no teu peito?
Um frio interno
que ninguém vê?
"Je suis désolé"...
não fui eu
quem fez
nosso inverno.
Ventava
no meu nariz
umas
folhinhas secas;
era a natureza,
que lendo
minha solidão,
vinha me
fazer cócegas.
Quando
estou frente a ti,
vejo
teus fósseis
esqueléticos
ganharem carne.
Ainda hoje
quando te vi,
meus olhos
granjearam gana,
minhas pernas
se agigantaram.
À tua frente, Tifão,
tudo que temo monstrua,
tudo o que penso dura,
e qualquer sentimento
que eu tenha
se enche de musculatura.
Havia
duas pedras
de gelo
em nós dois
que até
se partiriam
num abraço
bem dado.
Por outro lado,
havia
um laço
feito
de nós frouxos.
Nós,
que a valer,
nunca fomos apertados.
Já morei
em tanta gente;
De perto
vi o cerne
de muitas casas
e a essência
de outros lares;
Conheço
tantas cidades,
outro país,
muitos lugares;
Decerto,
tenho sonhos livres.
Mas você
é terra do apartado:
chão onde
tenho certeza
que jamais estive.
Só não entendo
porque me pesa
a indecisão
de sair ou não
de um lugar,
onde reconheço
nunca ter estado.
Estrelas
despencam
ensopadas
do universo,
e a lua
reverencia
(mística)
as águas
regadas
do Paranoá.
Minha blusa
encharcada
cai do meu ombro,
teu menino
escorrega
na concha acústica
de Manágua,
e cá, eu tombo,
inundada de amores.
Às vezes,
debilitados,
"fall sick of love".
Não cabe espanto.
Vez em quando
o coração
fica à mostra
por muito tempo
ao relento.
Fica destampado,
anda a esmo.
E coração
(a gente sabe bem)
tem baixa imunidade mesmo.
Tinha a dor
do não 'olvido',
do lembradiço,
do calado.
Isso de dor do ido.
Dor do que não ousa.
Disse que todo dia
era a mesma coisa,
que o viver
lhe doía à beça.
Ele dormia
com a dor de coração
e acordava
com a dor na cabeça.
Em junho,
meu bem,
o amor
que a gente sente
dá provas
à sua maneira:
pisa descalço
a brasa
da fogueira
pra mostrar
a fé que tem.
Ideias
a redemoinhar,
conceitos rotos,
pensamentos
em rodopios,
certezas frouxas.
E ela ali,
diluída no vacúolo
de palavras áfonas.
Agora,
os pés como asas,
soltos nos ares,
suspensos, calados,
calosos
de tantas ágoras.
E ela
a desconstruir
internalizações
e a se revirar
no interno
de suas veias.
Ali, no meio
de um sopro louco,
naquele poço,
toda encanto:
silêncio de sereia.
Divinamente
ventada pela vida,
tão "other than that",
tão ventilada.
Há dias de
tecidos coloridos
em minha poesia.
Tramas ruidosas,
amarradinhas.
Hoje mudo.
Falo de pontos
e de nossas escuras linhas.
De nós soltos
nesse pano da vida.
Nós rotos, rompidos.
Nós, "so to speak", arrebentados.
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| Josee Masse |
Há prosas
de jardim:
falas
que vão morar
no ouvido das rosas.
Há conversas
de varanda:
falas
que vão viver
para sempre
no coração das orquídeas.
Eu ouvi
de um passarinho
que
brotam rosas
do teu ninho.
Mas ouvi
das prosas
margaridas
que
minhas
'aparecidas'
ainda te espinham.
Mãos
em concha,
te trazia
estrelas frescas
colhidas
do meu céu;
em
meu colo
melífluo,
visco
pra te aderir.
Nestes
olhos aguados,
aquariado
vivestes Beta.
Da minha
boca Brasil,
dava a ti
a chama
quente cigana
de Vinícius;
verdades
augustas
dos Anjos;
versinhos
à la Quintana
e a ilha
intimista
de Cecília.
Da minha boca
provinciana,
eu, poesia rouca,
chegava a ti
por mim.
E ai de mim
que ia
pelo mundo assim
(em bom Português)
tão sem pastor
a me cantar
em liras.
Tão Marília sem Dirceu.
Fincou
os cílios postiços
no olhar cortiço
dele
e atrelou
seu colar
àquele pescoço.
Cravou
naquele peito
um salto fino.
Assim
fundiu-se
naqueles
olhos
inquilinos.
Colou
em uníssono
sua voz
sonolenta
à voz dele
e se enterrou
naquela alma
feito um
bichinho de pele.
Um bicho
miúdo
com
o domínio
de um miúra.
A saudade
surgiu
assoprada
da rua.
Anemófila.
Veio maviosa
desta vez,
fez cócegas
no meu ouvido,
pousou
borboleteada
aqui
no meu peito.
Levou leve
a mão nos
meus cabelos
coloridos,
amansou
o vermelho.
Assentou
dentes suaves
na maçã do meu rosto;
descansou
olhos verdejantes
no pente fino
dos meus pensamentos.
Voou em mim.
Pousou
asas maduras
na minha liberdade.
A cama desfeita,
o presente,
o peito silente.
Um sorriso,
a voz murmurada,
o pé na estrada.
Soltura,
espaço,
o aperto no passo.
O beijo,
um poema,
a oposição ao sistema.
Sentimentos escoam
e águam o fugaz:
é tempo de amorES corridos.
Estava
com a cabeça
ajardinada
e tinha
os pés nas nuvens;
No vai e vem
do caminho,
encontrou um jabuti.
Da sua
sua condição
amantética, ria,
pois até
um jabuti-piranga,
sem o condão
da estética,
redondão,
cara de cobra,
tinha certo
encanto, naquele dia.
Fala.
Conta
pra mim
da tua vida
em "Dublin".
Conta
desse "lago escuro"
que me bane
da tua poesia.
Conta
de quanta gente
tu tens te feito
hoje em dia.
Conta de Rosário,
conta de lágrimas,
conta do banco
da praça.
Conta do começo,
da traça do
fim do mês.
Conta corrente,
conta a aliança
de trás pra frente.
Con-ta.
Con-ta tu-do
a conta-gotas.
Canta comigo.
Faz cálice
do meu umbigo.
Conta nós dois outra vez.
Vou comprar
no Haiti
duas armas
de matar egoísmo,
uma pra mim,
outra pra ti.
Na época
não disse "sim"
tampouco
disse "não".
Hoje,
sem do futuro
qualquer
certeza,
amarra
o passado
ao pé da mesa,
de medo
que ele saia
correndo
de dentro de si.
 |
(Christian Schloe)
|
Há luas
que nascem,
luas
que enchem,
luas
que crescem.
E há
aquelas
animálias luas
que te
minguaram
em mim.
Gostava
de viver assim,
de louquidões
e "rock and roll".
Era uma
"rag doll"
nas cordas
da vida de metal.
Pediu licença
ao caminho,
se ajoelhou
à margem da estrada
e tomou fôlego
em papos-de-anjo.
Meio tonta,
desatou
o nó cego
da dor maciça
que arrastava
e voou
like angels,
passarinho içado,
por esse mundo de Deus.
Eu me outono
em torno,
Tu te outonas
em termos,
Ele se outona
em ternos,
Ela se outona
e inverna.
Nós OU to(R)namos OU não...
Num lugar
que não sei bem onde,
nem sei o nome,
no fundo do bolso
da camisa dele
Lá atrás,
lá onde a camisa some,
lá onde as pessoas
que ele ama vão morar,
vi um vaso solitário
com um amor-perfeito
na sala de estar.
Uma guinada
e tudo
volta a ser.
Uma reviravolta
e um "past"
se conjuga
no presente.
Tudo
pluga,
circunflexa,
gerundia.
O dia seguinte
circunflui amares,
despeja risos
em oceanos
que gargalham azuis.
No lusco-fusco,
heras
ganham os muros.
À noite
velas
debruçam ceras,
roupas
se entornam
no vinho;
noite afora
sedas
se derramam
de nós.
No grilhão
de uma
aliança,
até que
a morte
separe,
você,
acorrentado,
prometeu.
O fígado
exposto
para sempre.
Sua síndrome.
E esse
seu fogo
prometido
que não dorme
nem arde.
Sua entrega,
sua traição,
seu castigo.
Uma agonia
e eu,
no meio do jogo,
no meio do fogo.
Eu que nunca
me quis
tanto harpia
para gritar,
noite e dia,
agudos
no teu ouvido.
O pensamento
me conduzia
pela mão.
Íamos
os dois
sem cuidados
quando vi
a pedra
do caminho:
estradas
me arrastam
a torvelinhos,
estradas
me elevam
aos meus oásis.
De novo,
abstraí.
Rumamos,
pensamento e eu,
desatentos
sobre a cama.
Tão amolecados
e tão fora dos trilhos,
que foi o dia
em que mais
cambaleei em mim.
Pra ser
feliz
(vez em quando)
é preciso
(todo o tempo)
desabitar
nosso mundo
de perdão
inconfesso.
Tem que
virar
o coração
pelo avesso
todo dia
e espanar
a poeirinha
que fica
lá no fundo:
lá na casa
da poesia
da gente.