Em leques,
em cruzadinhas,
em livros
abertos,
em cima da cama
e aos montinhos
pelo chão.
Por certo,
na casa dela,
palavras
viviam assim,
sem proteção
nem avesso:
livres, soltas,
sem pontas.
Sempre prontas
para um verso.
Tua chegada parecia um céu de estrelas caindo no meu quintal: raia da beleza. "It was all". Sempre acontecia, mas não era todo dia que eu olhava para cima.
Existe
gente céu,
existe
gente chão.
Ninguém é
sempre e tanto.
E o gira mundo
finca a vida
de pernas
pro ar.
Resiste céu,
resiste chão.
Mas se o chão
sobe
pelas paredes
do olhar do outro,
os céus descem
para as mãos.
Mãos leves.
Elevem-nas.
E na face
do outro:
olhos Lévinas.
Quem sabe amar seja somente esse morrer doce inocente. Talvez. Quem sabe. E morrer de novo doce e inocente toda vez. Talvez quem sabe. Talvez amar seja. Só. Quem sabe.
Longe,
bem longe,
em uma
das casas
do passado dele,
morava
o sorriso dela.
Um sorriso
que o acordava
todos os dias
do sofá esfiapado
da sua vida
já sem teto.
E vivia ali,
desenho
arqueológico
no meio
de paredes
carcomidas,
solto em si,
aquele sorriso
de marfinar areias,
de transpor
mãos em concha
no rosto.
Sorriso calha,
canal onde
a minguante vida
ainda
lhe escorria.
Era um
sorriso turístico
que singrava
o norte sul
do seu corpo
envelhecido.
No baralho fechado, rainhas, damas reis, coringas e valetes vivem intrincadas paixões. Em duplas, trincas, em quadras, quinas ou unos... nunca se sabe bem. Sabe-se que desse jeito, na surdina do baralho fechado, o amor tem feito ases.
Do monstro mais nocivo ao ser mais dócil e infinitesimal, em tudo caibo. Sou de muito, quando em minhas vértices. E tudo que me comporta, verte-se nesse espiralado poço sem fundo e empoema. Empoesia-se nesse meu sumidouro de versos.
Tem dia que eu junto em colheradas todas as mulheres que me antecedem e vivem nuas, absconsas no paraíso que me mora. Nesses momentos, conchas se abrem no mar, Abelhas se abastam de mel, Senhoras saem das salas. "In the archaic model", e nessa hora, eu me visto de vestido e me dispo do ancestral (in) vestido.
Ouviu estalinhos
vindos do chão.
Pisava
alguma coisa
que escaqueirava
sob seus pés.
Intrigou-se.
Mas ele não
se dava conta,
tive que falar.
Eram os ossos
do nosso amor
caquético,
estridente
e sem sucesso,
que ele esmoinhava
quando seguia adiante.
Na sala,
(re)vestida. Before long,
o longo
vestido
c
a
i
ao longo
do corpo
no quarto.
Seus quartos nus. His emotions.
Alonga a vida,
a lânguida vida. Her reasons.
A fio
de lâmina
(gélida)
a seda
rasga o
porcelanato.
Viveu encantos, viveu escanteios. Enquadrada. Sem o temor de se esquecer se mantinha em cantoneiras: punha-se no canto da mesa, se sentava no canto do sofá, dormia no canto da cama. Mátria em cantos todos. Hoje num ato falho ela guarda sua história no cantinho de um dos olhos.
No corpo dela o dia madruga na tela clara. No corpo dele a noite dorme na parede escura. Mas se juntos dois nudes pintados, não há dia iluminado em telas nem noite sombreada em paredes; há um tempo que se dissolve em aguarrás.
Descobri: suavidade é coisa mandada. Coisa feita. Vem de encomenda. Qualquer delicadeza tem a missão de acertar em cheio (hole in one) o coração da gente.
Quando a noite
me pede
passagem
para algum
passado
(suspenso por grua)
regurgitado
do meu peito,
eu acendo
velas suadas
voltadas para
o sentido
do meu futuro.
Velas encerram.
Velas põem
a caminho.
Deixo assim
que a parafina
cumpra
seu papel
impermeabilizante:
sele estórias,
isole os tempos
liquefeitos
nos verbos,
e repila
a água quente
que me brota
dos olhos.
Eles vadiam pela tua poesia, voam fantasmados, pousam perto de ti a te rogar abrigo. A pedir tua proteção, a te exigir um destino. Meus pés brancos buscam o rumo da vida em tuas mãos. Querem a tua sorte, a insensatez de vagar, almas penadas, mundo afora contigo.
Houve um tempo de confissões. Então ela lhe disse que passara por ela pássaros de asas feridas que a descobriram, passara por ela pássaros de asas gigantes que a encobriram, passara pássaros de asas rápidas que a divertiram. E como forma de aquietar, ou talvez incitar nele os ciúmes, ou ainda seduzi-lo com a lembrança da habilidade dela com a língua; ela lhe disse que aquele era um passado mais- que-perfeito.