Tinha a dor do não 'olvido', do lembradiço, do calado. Isso de dor do ido. Dor do que não ousa. Disse que todo dia era a mesma coisa, que o viver lhe doía à beça. Ele dormia com a dor de coração e acordava com a dor na cabeça.
Ideias a redemoinhar, conceitos rotos, pensamentos em rodopios, certezas frouxas. E ela ali, diluída no vacúolo de palavras áfonas. Agora, os pés como asas, soltos nos ares, suspensos, calados, calosos de tantas ágoras. E ela a desconstruir internalizações e a se revirar no interno de suas veias. Ali, no meio de um sopro louco, naquele poço, toda encanto: silêncio de sereia. Divinamente ventada pela vida, tão "other than that", tão ventilada.
Há dias de tecidos coloridos em minha poesia. Tramas ruidosas, amarradinhas. Hoje mudo. Falo de pontos e de nossas escuras linhas. De nós soltos nesse pano da vida. Nós rotos, rompidos. Nós, "so to speak", arrebentados.
Mãos
em concha,
te trazia
estrelas frescas
colhidas
do meu céu;
em
meu colo
melífluo,
visco
pra te aderir.
Nestes
olhos aguados,
aquariado
vivestes Beta.
Da minha
boca Brasil,
dava a ti
a chama
quente cigana
de Vinícius;
verdades
augustas
dos Anjos;
versinhos
à la Quintana
e a ilha
intimista
de Cecília.
Da minha boca
provinciana,
eu, poesia rouca,
chegava a ti
por mim.
E ai de mim
que ia
pelo mundo assim
(em bom Português)
tão sem pastor
a me cantar
em liras.
Tão Marília sem Dirceu.
Fincou os cílios postiços no olhar cortiço dele e atrelou seu colar àquele pescoço. Cravou naquele peito um salto fino. Assim fundiu-se naqueles olhos inquilinos. Colou em uníssono sua voz sonolenta à voz dele e se enterrou naquela alma feito um bichinho de pele. Um bicho miúdo com o domínio de um miúra.
A saudade surgiu assoprada da rua. Anemófila. Veio maviosa desta vez, fez cócegas no meu ouvido, pousou borboleteada aqui no meu peito. Levou leve a mão nos meus cabelos coloridos, amansou o vermelho. Assentou dentes suaves na maçã do meu rosto; descansou olhos verdejantes no pente fino dos meus pensamentos. Voou em mim. Pousou asas maduras na minha liberdade.
Fala. Conta pra mim da tua vida em "Dublin". Conta desse "lago escuro" que me bane da tua poesia. Conta de quanta gente tu tens te feito hoje em dia.
Conta de Rosário, conta de lágrimas, conta do banco da praça. Conta do começo, da traça do fim do mês. Conta corrente, conta a aliança de trás pra frente.
Con-ta. Con-ta tu-do a conta-gotas. Canta comigo. Faz cálice do meu umbigo.
Na época não disse "sim" tampouco disse "não". Hoje, sem do futuro qualquer certeza, amarra o passado ao pé da mesa, de medo que ele saia correndo de dentro de si.
Pediu licença
ao caminho,
se ajoelhou
à margem da estrada
e tomou fôlego
em papos-de-anjo.
Meio tonta,
desatou
o nó cego
da dor maciça
que arrastava
e voou like angels,
passarinho içado,
por esse mundo de Deus.
Num lugar que não sei bem onde, nem sei o nome, no fundo do bolso da camisa dele Lá atrás, lá onde a camisa some, lá onde as pessoas que ele ama vão morar, vi um vaso solitário com um amor-perfeito na sala de estar.
Uma guinada e tudo volta a ser. Uma reviravolta e um "past" se conjuga no presente. Tudo pluga, circunflexa, gerundia. O dia seguinte circunflui amares, despeja risos em oceanos que gargalham azuis. No lusco-fusco, heras ganham os muros. À noite velas debruçam ceras, roupas se entornam no vinho; noite afora sedas se derramam de nós.
No grilhão
de uma
aliança,
até que
a morte
separe,
você,
acorrentado,
prometeu.
O fígado
exposto
para sempre.
Sua síndrome.
E esse
seu fogo
prometido
que não dorme
nem arde.
Sua entrega,
sua traição,
seu castigo.
Uma agonia
e eu,
no meio do jogo,
no meio do fogo.
Eu que nunca
me quis
tanto harpia
para gritar,
noite e dia,
agudos
no teu ouvido.
O pensamento
me conduzia
pela mão.
Íamos
os dois
sem cuidados
quando vi
a pedra
do caminho:
estradas
me arrastam
a torvelinhos,
estradas
me elevam
aos meus oásis.
De novo,
abstraí.
Rumamos,
pensamento e eu,
desatentos
sobre a cama.
Tão amolecados
e tão fora dos trilhos,
que foi o dia
em que mais
cambaleei em mim.
Pra ser
feliz
(vez em quando)
é preciso
(todo o tempo)
desabitar
nosso mundo
de perdão
inconfesso.
Tem que
virar
o coração
pelo avesso
todo dia
e espanar
a poeirinha
que fica
lá no fundo:
lá na casa
da poesia
da gente.
De longe
ela via
seu parceiro
a se
redemoinhar.
Toda tarde,
chão seco.
Na soleira
da porta,
sentado,
queixo duro
entre os joelhos
e mão pesada,
ele acariciava
os defeitos
que tinha.
Enresinava
pensares,
calejava
a casa inteira.
Quer amar
em conta-gotas
de vidrinho?
Que ame.
Você ainda
é menino.
No amor
sou adulta,
seu moço.
Já fui
dos borbotões
das águas claras
de uma cachoeira
às águas turvas
e paradas
de um poço.
Eu posso.
Amo às enxurradas!
Calçou os sapatos de ir mais longe e vestiu a roupa de "ver Deus". Pegou o pente de pentear pensamentos desfiados, puxou a cadeirinha almofadada da vida, investiu em seus olhos mélicos e mimou-se horas a fio, em frente ao espelho.
Em leques,
em cruzadinhas,
em livros
abertos,
em cima da cama
e aos montinhos
pelo chão.
Por certo,
na casa dela,
palavras
viviam assim,
sem proteção
nem avesso:
livres, soltas,
sem pontas.
Sempre prontas
para um verso.
Tua chegada parecia um céu de estrelas caindo no meu quintal: raia da beleza. "It was all". Sempre acontecia, mas não era todo dia que eu olhava para cima.
Existe
gente céu,
existe
gente chão.
Ninguém é
sempre e tanto.
E o gira mundo
finca a vida
de pernas
pro ar.
Resiste céu,
resiste chão.
Mas se o chão
sobe
pelas paredes
do olhar do outro,
os céus descem
para as mãos.
Mãos leves.
Elevem-nas.
E na face
do outro:
olhos Lévinas.