quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Dias sem sol
Viveu
encantos,
viveu
escanteios.
Enquadrada.
Sem o temor
de se esquecer
se mantinha
em cantoneiras:
punha-se
no canto da mesa,
se sentava
no canto do sofá,
dormia
no canto da cama.
Mátria
em cantos todos.
Hoje num
ato falho
ela guarda
sua história
no cantinho
de um dos olhos.
O barulho da paixão
A voz rouca
da paixão
cantou hoje
no meu ouvido.
De cara,
pareceu um
assobio gaio
de menino.
Mais tarde,
me lembrou
o canto
sibilino
do urutau.
Depois
semelhou
o apito enfado
de um
guarda-noturno
apartado.
Na verdade
era tudo junto.
Sequência
de vagões.
A voz rouca
da paixão,
cantada hoje
ao meu ouvido,
era a chegada
de um trem.
domingo, 4 de dezembro de 2016
Os dois nudes do museu
No corpo
dela
o dia madruga
na tela
clara.
No corpo
dele
a noite dorme
na parede
escura.
Mas
se juntos
dois nudes
pintados,
não há dia
iluminado
em telas
nem noite
sombreada
em paredes;
há um tempo
que se dissolve
em aguarrás.
Ingenuidades
Brincando,
por tantas vezes
morri tanto
em teus (a)braços,
que nem
me dei conta
quando deveras
eu morria
no teu peito.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Das branduras
Descobri:
suavidade
é coisa
mandada.
Coisa feita.
Vem de
encomenda.
Qualquer
delicadeza
tem a missão
de acertar
em cheio
(hole in one)
o coração
da gente.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Roupas da alma
Existe
"saia do passado",
existe
"vestido de presente",
e existe
um "terno futuro".
Vê? Existem roupas
que combinam mais
que outras com você.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Se ouço a tua música
Quando a noite
me pede
passagem
para algum
passado
(suspenso por grua)
regurgitado
do meu peito,
eu acendo
velas suadas
voltadas para
o sentido
do meu futuro.
Velas encerram.
Velas põem
a caminho.
Deixo assim
que a parafina
cumpra
seu papel
impermeabilizante:
sele estórias,
isole os tempos
liquefeitos
nos verbos,
e repila
a água quente
que me brota
dos olhos.
A cerca do futuro
Aqui estou,
tensa,
diante desse
future tense
que chega
daqui a pouco
num jet plane
com flight plans
que desconheço.
domingo, 6 de novembro de 2016
A vida nas asas de Brasília
Nuvens em flocos,
sorvete de flocos,
clima de Marrocos,
a vida em blocos
e você assim...
todo derretidinho.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Pés brancos
Eles vadiam
pela tua poesia,
voam fantasmados,
pousam perto de ti
a te rogar abrigo.
A pedir tua proteção,
a te exigir um destino.
Meus pés brancos
buscam o rumo
da vida em tuas mãos.
Querem a tua sorte,
a insensatez de vagar,
almas penadas,
mundo afora contigo.
"Broto"
Eu venho
de chãos
quentinhos,
sou
winged seed.
Se me guardo
by your side,
é que confio
em seu refúgio
para me
reverdecer.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Desigualdades loviais
Desta vez
o começo
é de todo
tão dissemelhante
de outrora,
que só quero
o meio
e o fim dessa história,
dissemelhantemente
igual
ao início de agora.
domingo, 16 de outubro de 2016
Eu
Mata-me
onde não
te faço feliz.
Depois vela
minha parte
onde
verdadeiramente
sou eu,
onde não
sou um
dos teus
inventos.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Belicosidade poética
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Digitais de passarinho
Houve um tempo de confissões. Então ela lhe disse que passara por ela pássaros de asas feridas que a descobriram, passara por ela pássaros de asas gigantes que a encobriram, passara pássaros de asas rápidas que a divertiram. E como forma de aquietar, ou talvez incitar nele os ciúmes, ou ainda seduzi-lo com a lembrança da habilidade dela com a língua; ela lhe disse que aquele era um passado mais- que-perfeito.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
Ela em seu caminho
Contramão
da tristeza,
existe uma via
de risos engarrafados
naquela mulher.
Há uma estrada
de velocidade
descontrolada
pela insensatez,
por onde ela passa.
Na face
daquela mulher,
tanta beleza:
há uma "autobanh"
para gargalhadas,
com uma depressão pagã,
margeada por brincos de princesa.
domingo, 14 de agosto de 2016
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Dois candangos
Em troca do suor
de tua risada
dou-te
tudo que tenho,
moreno da norte.
Leva-me contígua,
meu
engenho de sonhos,
meu passarinho
de outra Asa.
Mas, prometa-me,
meu Sereno,
noite dessas,
qualquer dia,
traz de novo
tua ousadia
pra brincar
aqui em casa.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Poesia em pó
Ah, eu?
Eu bebo
na fonte
da poesia
instantânea
que
me analgesia,
meu amor.
A minha dor
de poema
dissolvida
nessa
veia literária
é vida
que avinha.
E é tanto,
que já me faz
durar mais
de cem dias
tonta;
sem te sentir,
sem teu encanto.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Tuas estrelas
Vi que o passado
desfilava
na luz
daqueles olhos,
me presenteando.
Não resisti.
Usei meus pés
de Curupira
e despistei
os caçadores de futuro
que viviam em mim.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Formas, tempos e modos de amar
Vívido é uma maneira de amar acentuando o particípio vivivo. Já o futuro tem um modo subjuntivo de amar, o obscuro. O indicativo é modo que se pode amar em um tempo presente. E é bonito, porque é um jeito de amar sem passados, sem particípios espetaculosos, sem futurações _ futuro com ilações.
Ora, deixe isso quieto. Melhor amar e pronto. Afinal, amar é forma infinitiva onde o verbo se mostra naturalmente. É o falar sem roupas, é o verbo nu. Exprime a ação de maneira indeterminada, não tem um tempo certo, um modo certo, uma pessoa certa. Amar, e, infinitivamente, amar.
domingo, 10 de abril de 2016
sábado, 9 de abril de 2016
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Intemporalidade amorosa
Nunca soube temporalizar meus amores. Tudo é tão vivo. É do meu passado? Esteve no meu futuro? Estará no meu presente? Para mim a rigidez do tempo transveste, falseia, armadura muito. E um tempo convencionado não cabe, não veste os amores que trago.
Como um Michelangelo os amores que vivo são grandes obras inervadas, inacabadas. O verbo deles é sempre gerundial: passando, presenteando, futurando. Meus amores são assim, pecaminosamente, reticenciados. Todos.
sábado, 12 de março de 2016
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Eu no mundo
Meu movimento
é no sentir do universo:
cato vento,
conto estrofe,
canto poesia.
É em verso
que no universo
me movimento.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Categorias de colecionadores
Um amigo meu coleciona mentiras,
uma amiga tem uma coleção de vantagens,
um outro coleciona hipóteses,
Eu, hiperbólica, coleciono meus absurdos.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Tratos e retratos
![]() |
| Lécia Lucas |
Ele tinha tudo dela. Desde o suave feminino delimitado por Waterhouse à imensidão colorida da mulata hirta Di Cavalcantiana. Vivia ali, pregada na parede da alma dele. Um dia, o metal do pescoço acorrentou a fala e as palavras se esconderam na garganta, na cova funda do medo. No fosso da covardia. Assustada, ela se desemoldurou.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Horário de voos
Hoje num sonho, li na primeira página de um livro: "Feliz ano mudo para quem não sabe voar." Chamou-me à responsabilidade. Então, para os fuselos o ano gritará.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
A árvore que me abre
O natal é mesmo um tempo de revelações e exposições. As vitrines ficam mais atrativas, as cidades mais iluminadas e as casas espelham seus donos, nas decorações natalinas. Falando dessas revelações, exponho-me para exemplificar. Sem pensar muito, fiz uma árvore de natal prateada. Nunca havia feito uma árvore monocromática, sempre fiz árvores multicoloridas. Desta vez, bolas, enfeites, laços de fita, tudo prata. Usei led na iluminação. Ficou claríssima. Mas o que ela diz de mim? Onde minha árvore me representa?
Primeiro, a luz brilhante, como Goethe no fim da vida: "Luz! Mais Luz!" Termino o ano vendo o escuro dele. Um ano de muitos "escondes", abstruso, de pouca clareza. Vejo isto não só em minhas relações, nas relações interpessoais e familiares que presenciei, mas também na vida do país, no mundo. Na semana passada, por exemplo, vimos juntos uma justiça brasileira aliada a políticos insistentes que querem manter muros altos de proteção onde não cabe defesa. No Bataclan de Paris com Hell's Angels, e na lama de Bento Rodrigues, tivemos tramoias e esconderijos. O rato. Para quem acredita, coincidentemente, 2015 é o ano do Rato no horóscopo chinês. O bicho esperto que vive enfurnado em buracos sombrios e é incansável em suas esperas na criação de oportunidades. Ano que vem, 2016, será o ano do macaco, o bicho que mais se aproxima do humano. Quem sabe o macaco nos ensinará, com graça, a evoluir nas questões políticas, humanas e pessoal.
Mas, além da luz branca, cintilante, minha árvore prateada traz mais significados para questionamentos. Sem perceber coloquei laços, muitos laços. Então, dos meus laços, quais deles eu preciso? Quais devo apertar, ou afrouxar?
Da prata? Ora, sabemos, a platina é mais preciosa que o ouro. Vale mais. Pois é, talvez eu tenha que me fazer mais cara para mim mesma, para os que me rodeiam e para quem mais vier.
E sua árvore de natal? Como você se lê nela? E se ela não existe, como você faria sua árvore?
Que venha um natal de abençoada conscientização para todos nós, e um ano novo de resgate de nossos preciosos valores como patriotas e como pessoas.
Primeiro, a luz brilhante, como Goethe no fim da vida: "Luz! Mais Luz!" Termino o ano vendo o escuro dele. Um ano de muitos "escondes", abstruso, de pouca clareza. Vejo isto não só em minhas relações, nas relações interpessoais e familiares que presenciei, mas também na vida do país, no mundo. Na semana passada, por exemplo, vimos juntos uma justiça brasileira aliada a políticos insistentes que querem manter muros altos de proteção onde não cabe defesa. No Bataclan de Paris com Hell's Angels, e na lama de Bento Rodrigues, tivemos tramoias e esconderijos. O rato. Para quem acredita, coincidentemente, 2015 é o ano do Rato no horóscopo chinês. O bicho esperto que vive enfurnado em buracos sombrios e é incansável em suas esperas na criação de oportunidades. Ano que vem, 2016, será o ano do macaco, o bicho que mais se aproxima do humano. Quem sabe o macaco nos ensinará, com graça, a evoluir nas questões políticas, humanas e pessoal.
Mas, além da luz branca, cintilante, minha árvore prateada traz mais significados para questionamentos. Sem perceber coloquei laços, muitos laços. Então, dos meus laços, quais deles eu preciso? Quais devo apertar, ou afrouxar?
Da prata? Ora, sabemos, a platina é mais preciosa que o ouro. Vale mais. Pois é, talvez eu tenha que me fazer mais cara para mim mesma, para os que me rodeiam e para quem mais vier.
E sua árvore de natal? Como você se lê nela? E se ela não existe, como você faria sua árvore?
Que venha um natal de abençoada conscientização para todos nós, e um ano novo de resgate de nossos preciosos valores como patriotas e como pessoas.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Contradições
Vem a noite
com escuridades
vem o dia
e alumia.
Vem o cão
com seu sermão,
vem um Deus
com sabedoria.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Enredado em suas rendas
Notava que ela já escrevia sem as amarras nas mãos. Aquelas mãos agora bailavam libertas. Os dedos podiam saltitar sobre as teclas como que debulhados de uma espiga. Aqui na cama, pensamentos e cognições de combinações binárias me chegavam. Acolá, naquela mesa, o computador esperava por pensamentos femininos fugidios.
A renda telha acetinada não lhe cobria o corpo, muito mais o acariciava, desenhando em suas costas brancas e magras, umas flores grandes e determinadas que entravam pelos meus olhos espinhando-os. As mãos, a mesa, a cama, o computador, os pensamentos, o sistema, a trama da renda, as flores e seus espinhos turbilhonavam, redemoinhavam em minha cabeça. Tudo era dela. Tudo era ela. Eu não era, eu não tinha nada.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
A égide
E enquanto
vinha do vento toda espécie de desaforo e violência no caule e nas folhas, os
galhos se entrelaçavam em abraços cada vez mais sinceros e protetores.
Permaneciam assim fechados numa teia enorme, agarradinhos. Ouviam sem medo, o uivo
da tempestade e tinham suas dores umedecidas, balsamizadas, amortecidas pelos
respingos do afeto da chuva que caía.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Dissidência
terça-feira, 28 de outubro de 2014
O homem na cama
A cabeça cirandava
no travesseiro
de penas
e sonhos apenados,
Os pés deixaram
os passos lá fora.
As mãos
acenavam
para o passado.
A morte lenta
descia sua luz fraca
no tablado
de seu corpo
apoucado.
A luz da janela
batia naquele rosto
e o condenava
à escuridão da cama.
No chão,
a mal lavada alma,
Uns dedos grossos
engatilham a calma,
E todos os dias
ao seu ouvido
a vida fica ali,
zunindo em despedida.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Presa no encanto
Outro dia um amigo me disse que eu precisava sair. Achou-me ensimesmada. Respondi a ele que estou presa por 'encanto'. Comecei a pensar sobre isso, me imaginar pondo a cara pra fora de casa. Abri uma frestinha de porta e pude ver, há um mundo lá fora. Estamos em primaveras: eu e a natureza. Vi árvores floradas, quietas, paradas como eu, e assim como eu, com aquela calma de quem acabou de parir. Fiquei presa no enquanto. Com ouvidos colados à parede e através de minhas janelas ouvi o mundo. Do alto. Ouvi o mundo sobre um rochedo, como o faz uma sereia. Um mundo assoviado por cigarras que me remontam ao passado. Exageradas, elas bebem todo o orvalho da noite, cantam à exaustão, estouram de cantar e ainda me apavoram.
Sim, estou presa em cantos. No canto das cigarras, no meu próprio canto. Na minha encantadora caladura de sereia trazida por Kafka, no seu "Silêncio das Sereias": "As sereias, porém, possuem uma arma mais terrível do que seu canto: seu silêncio."
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