terça-feira, 23 de setembro de 2014

Poder do querer

 
 


     Na primavera floram
     verões, outonos e invernos
     Flora o que a gente quiser
     que flore na vida da gente










sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Coautoria



                             Bruno Catalano
                                                    

Viveu tanto tempo
nos sonhos dele
como hóspede,
que tornou-se
partícipe.
Resolveu ficar 
por ali mesmo.











domingo, 7 de setembro de 2014

Um espinho de flor



Dou minhas costas
à sua canção
Você de asas, adora meu dorso.

Faço sombra
à sua imagem
Você no escuro, me perdoa em reza.

Sujo seu nome
Traço fugas
Você na lama, minhas chagas cura.

Meu liberto e sombrio amparo,
Por que me quer de perto,
Se no amor sempre te deserto,
Se sou veio de um rio na sua dor?








terça-feira, 26 de agosto de 2014

Da análise



        O olhar de cobra pousava nela cobrindo-a com suas asas gigantes. Embora esquivasse, mais retida se sentia na escuridão do lugar. Tentou um grito, não veio. Aquietou-se encolhida naquelas penas enormes, verdadeiras piedades. No vão da plumagem ela via árvores floridas balançadas, e folhas indefesas fustigadas pelo vento. Do liláceo das pequenas flores que caíam ela remontava lenta e cuidadosamente sua infância, sua mocidade, seu presente ganho. Seu movimento era, então, redemoinhado. Assim, muito espiralado, de fora para dentro do dentro.
 





 
 
 
 
 

sábado, 23 de agosto de 2014

O complexo de Diana




Uma predadora, 
presas ímpares
em tantos pares.
Um amor solto no ar,
outros amores nos bares.









terça-feira, 8 de julho de 2014

Tuas vindas


Quando 
com a calma
de flores adultas 
mortas,
aninhas cá 
no meu peito
e te descansas,
suporto.
Mas se danças,
criança,
em meu coração cansado
e dás cambalhotas, sofro.

sábado, 5 de julho de 2014

O lado de dentro acordado




          Minha insônia me dá muito de mim. Diz-me como tenho me permitido ser habitada. Fala do meu corpo e de onde ele me chama através da dor. Sem dormir, percebo como são estreitas minhas costas  magras para os perigos da cama no mundo. Posso sentir com a insônia minha debilidade pulmonar reclamando sustos contidos. Conta-me minha insônia com que pés tenho andado, e com quais deles devo seguir caminhando. A cidade em mim não fecha suas asas. O estado não se aninha aqui dentro. Não cala o bico o país que povoa meu quarto. Meu universo não fecha olhos. E a menina dos meus olhos não aceita esta mesma cantilena, quer outra canção de ninar.



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Inquirida

Ilust. Denis Zilber


Quem vem
me ver?
Que verve
em mim vê?
Que verme
me vem?
Quem vai
viver-me?









segunda-feira, 9 de junho de 2014

A carta: "Os enamorados"



Chega no baralho aberto
de empilhada escuridão
Revela incerto universo
Uma visita Eros a Psiquê?
Um "habitué" do meu corpo
Eros amava e se encobria
Psiquê a tudo clareava
Exponho-te em meu jogo
Fantasma fantasia
visão 'fantus', tarot
Gula pantagruélica
de sonhos não santos
Quem a mim negra,
me assume claro encanto?
Não tem eira nem beira
Vem pelo faro
Vem pelo ralo
Me povoa e me rende
Enreda-me como polvo
Divina íris verde escura:
caco de vidro lancinante
Complexo adulto frágil
Ágil sábio no meu corpo
sacro, magro, assimétrico 
Granada, água- marinha,
opala, esmeralda, ágata,
brilhante, pedras semi 
e preciosas.
E numa fantasia galante 
quem pedra me espera?









quinta-feira, 5 de junho de 2014

O sonho de uma presença


                       

         O tempo não está lá atrás ou lá fora. Ele vive aqui dentro e ocupa os cantinhos do presente ou fica na nossa imensidão de futuro. O tempo é presente ou futuro e não há como “ter” um tempo passado, o tempo é ou será. O passado não deve viver... senão nos relatos de nossas histórias. Por falar em história, conta-se que certa vez perguntaram ao astrônomo italiano Galileu Galilei a idade dele. Ele dissera, na ocasião, que tinha oito ou dez anos e que na verdade ele só tinha os anos que lhe restavam de vida, porque os vividos ele não os tinha mais. E para ele anos passados eram como moedas gastas: não eram mais dele.
       Em nossa cultura contamos os anos passados de nossas vidas. Por certo, isso nos prende ao passado. Assim, nos relacionamos com o passado como se estivéssemos soltando pipa: prendendo-o numa ponta e cuidando para segura-lo por uma linha. Talvez romper com essa amarrazinha nos permita flutuar em paz no presente e rumar ao futuro. O ideal é que tenhamos “el tiempo entre las manos”, controlando-o no presente e ‘futurando-o’.
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Não pise na flor

    

Te, ti, teu, tua,
nada é meu
ou para mim
nesta rua
Se, si, seu, sua
nada de nós
nessa lua
Atéia, à toa
louca, crua
nunca fui pouca.
Um pronome?
_Eu.
Minha língua
gélida e dura
Nunca contígua
_Solta.
Um possessivo?
Minha. Só minha.
Nesta vida
vim sozinha.







quarta-feira, 21 de maio de 2014

Subjuntividades



Christian Schloe
 
        Se eu pudesse seria seu único canal condutor de notícias. Monopolizaria suas fontes de informação e só traria boas novas para arrancar seus mais sérios risos. Daria notícias engraçadas para provocar suas gargalhadas mais fiéis. Também contaria todas as mentiras que você quisesse ser feliz ouvindo.
        Transformaria em sua casa o mundo e o mundo em sua casa, se eu pudesse. Uma vida sem portas nem trancas. O mundo seria uma sala de receber suas melhores visitas. Faria deste mundo uma casa circular assim: um quarto de sonhos lindos de se realizar, e os três quartos restantes seriam ausência de seus pesadelos.
        Se eu pudesse faria de sua janela de olhar dentro de si um mundo feio, uma espécie de gaveta de criado mudo, segredada.
       Também se eu pudesse, te daria as melhores combinações de letras. E das palavras prontas emitiria os sons mais harmônicos e cadenciados aos seus ouvidos. Eu te daria todos os poemas por fazer e todas as músicas compostas. Poderia ainda, te pintar de toda cor, te redesenhar e te revelar em telas.   
       Ainda se eu pudesse, te daria uns beijos gritados e uns abraços mais silenciosos depois de cansada.
       Ah, se eu me permitisse! Se eu te permitisse eu me daria tanto.
 
 
 
 
 
 

sábado, 12 de abril de 2014

Olhos de te plantar


                                                                        Mark Hyden

Nos meus olhos marrons,
tua semeadura.
Nos teus olhos verdes,
meu germinar.







Genealogia


                                                                                       Ilst. Alessia Lannetti

O teu tronco de árvore
a tua casca grossa
teu riso torto galho
A seiva.
A raiz de teu pé de meia
Nossas meias verdades
A verdade absoluta mente
A sola.
Tua mente semeia dúvida 
Tuas lágrimas de crocodilo
A sombra.
Tudo degela meu coração
duro e se queda em cachoeira
Rio.
Um rio escorre de olhos d'água
na minha nossa cara de pau.





quinta-feira, 27 de março de 2014

Amoralês


                                                                                  (Ilust.Valéria do Campo)
 
            Criei um idioma para nós dois. Nele, os verbos não são de ação, são de estado. De ligação. Nesta língua restrita a nós, as palavras são leves como plumas, se assentam onde querem, como querem e rimam entre si sem pedir nossa ajuda. Tudo é sonoro e harmônico, com musicalidade, ritmo e métrica. Ali, todos os adjetivos designam qualidades positivas e o advérbio mais presente é o de intensidade. Um advérbio de dúvida só aparece para aforquilhar o que pode ser perfeito e o que pode dar certo. A única preposição é a essencial: “entre”. E liga nós dois elementos de uma oração (divina), nos subordinando sempre um ao outro. Ora somos termos regentes, ora somos regidos.
         Nesta minha linguagem também existe a comunicação não verbal onde os pensamentos se encontram e se cumprimentam com abraços. Onde nossas impressões acerca das coisas deste mundo se esbarram e se beijam todo tempo, nos traduzindo. Em minha língua há dois pronomes: nós. Nosso substantivo é abstrato, impalpável como tudo que não se perde no mundo. O artigo é indefinido, o numeral é multiplicativo e a conjunção é aditiva, vem para somar. As interjeições? Ah, as interjeições! Não há amor expresso sem elas... Não que eu conheça. As interjeições, limitei às necessárias: de alegria, invocação, saudação, admiração, de aplauso, agradecimento, animação, de chamado, de desculpa, de desejo e claro, de saudade. Oh, saudade!  
 
 
 
 
 

domingo, 23 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Caminhada de Hesse

              

                   
                Em uma aldeia muito distante, em uma casa bem grande, vivia uma mulher gigante. Ela não se sabia agigantada. Olhava-se no espelho e além de sua beleza, não enxergava mais nada que a pudesse distinguir de outras pessoas do mundo. Perto dali, havia um homem anão. Ele não tinha conhecimento da existência de mulheres gigantes, também não se imaginava pequeno como realmente era. Acontece que mulheres gigantes raramente olham para baixo, e homens anões não veem além da linha do horizonte traçada por seus olhos. Tece daí a conclusão de que nunca se revelariam um ao outro. 
          Os textos judaicos trazem que somos sempre levados para o caminho que desejamos percorrer. Então, a mulher gigante caminhava olhando para o futuro formado a partir dos seus olhos altos, e não via ninguém. O anão passeava por perto e sentia-se sozinho em sua pequenez  ignorada. Foi aí que ele, o anão, fez pra si uma escada bem alta ligando a terra ao céu e subiu. Subiu, subiu. Deslumbrou-se. A cada degrau subido, se imaginava aproximando mais do que queria, sem sequer dar-se conta do que seria que queria. Ia às cegas. A mulher gigante não parava de andar. Sabia que ao avançar, se aproximava mais de seus objetivos. Às vezes,  surpreendia-se com os percalços em sua andança , mas rumava. Olhou adiante e viu uma escada enorme. Identificou-se. Imaginou ser alguém igual a ela, de pernas compridas para dar passos largos, com quem pudesse dividir caminho. Mas iludira-se. Era um homem pequeno, no alto de uma escada feita de gente. Era o anão. Ele usava pessoas como degraus para se complementar. Ela chorou. Chorou um choro gigantesco e entendeu: não era ali que parava.




sábado, 8 de março de 2014

Conto de ninar mulher insone

                   
 
          Ela jogou-se na cama fria e de olhos estatelados, se olhava nos espelhos que a cercavam. De cada um deles surgiam várias mulheres. Todas, ela. Via-se infinita em suas possibilidades. 
         Uma sirene ensurdecedora e insistente enchia sua cabeça zonza. Seu corpo suava, suas mãos tremiam e seu coração era uma espécie de relógio descompassado que batia fora da hora. Um planeta sem órbita. Em uma parede via uns olhos vermelhos que combinavam com seu batom. Em sua cabeça, os pensamentos eram segmentados, destroçados. Nada seguia uma ordem, todo pensamento era incompletude. Cada fio de cabelo parecia um pensamento interrompido em seu comprimento. Tudo nela era indefinido e despedaçado. Sua memória dançava entre os tempos. Não se enxergava no presente, não estava no seu futuro e não se prendia a um passado. Estava solta, atemporal, sem sequência, quebrada e maltratada pelas pontas de espelhos do teto, das paredes, da cabeceira da cama. Seus pés, por causa da dança, doíam como nunca. Sentia todas as inervações de seu corpo e a dor se espalhava, ramificava quente pelos seus membros.
           Perturbada, ela foi-se encolhendo devagarinho, formando com o corpo uma espécie de concha acústica que lembrava a posição fetal. E ali ficou, embrionária, larvária, por muito tempo. Queria dormir, não conseguia. A música alta latejava sem nenhum sentido e sem ritmo dentro dela. Estava ardendo, seu corpo queimava, ela se via incendiar. Via as labaredas que saiam de seu corpo magro, sem músculos. Seus ossos crepitavam no fogo. De medo, começou a se debater na cama. Ela sabia: entrava em erupção. Via seu sangue sair em jatos deixando seu corpo frouxo, murcho. Mas a natureza humana a tudo aquieta e tudo remedeia. Então, surge de um dos cantos espelhados do quarto, um pássaro minúsculo e pousa no antebraço dela; com seu bico agulhado faz um furo em sua carne e começa a assoprar forte, inflando-a. E aí, ela vai se enchendo, ficando cada vez mais leve, até sair flutuando entre as quatro paredes, multiplicada em mil. Ela ali, boiando no ar, no meio do quarto. Suspensa, lentamente ia ao teto, devagarinho descia ao chão, ia de uma parede a outra navegando no ar, dançando nua. E esvoaçante entre seus reflexos, pairou sobre a cabeceira da cama e adormeceu acalmada por seu bamboleio.  





 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E lá no meio do meu caminho



         Odeio caminhar. Prefiro "andar" de carro, sobre teclas, em páginas de livros, gosto de vagar alma penada pelas salas, andar sobre os muros (como fazia quando criança), pelos armários, gavetas, em cima das camas, pelas paredes, áreas, árvores, sonhos...enfim, qualquer lugar que me distancie da terra. Mas nunca vagar a esmo, sair pelas ruas à toa, como sugerem os médicos. Por outro lado, adoro me contrariar. Sempre que posso, faço isso. Incrível, mas faço. Hoje à tarde, por exemplo, quando o sol foi embora de Brasília e eu percebi que ele não tinha a menor possibilidade de voltar, fiz uma caminhada.
        Encontrei uma criança chata com um rodo enorme na mão e fazendo a seguinte e divertida brincadeirinha: quando vinha alguém, ela colocava o rodo no caminho e atrapalhava a passagem. Uma outra criança e um pai comemoravam a volta de bicicleta, agora, sem as duas rodinhas. Passei por uns adolescentes andantes (todos são) que fazem umas caminhadas estranhas, em tribos e pelo celular. Vi senhorinhas de cachorrinhos com laçarotes coloridos e muitas mulheres e homens belos, músculos à mostra.
        Quem caminha entre as quadras da cidade se situa neste debate: babás boazinhas com suas miudezas fofas, gente bonita musculosa, senhorinhas e senhorzinhos bem-humorados, cachorrinhos e tal. E eu no meio disso tudo, caminhando. Mas me chamou atenção mesmo, uma camiseta que estava no meio do caminho, muito clara, escrito bem miudinho, assim, cochichado: doador de sangue. Tinha um ser humano dentro dela.







sábado, 25 de janeiro de 2014

Plano e espacial




  
Não se pode chamar:"nosso abraço"
Esse enlaço é bem maior.
Talvez um compasso fechado,
um transferidor de grau,
ou a própria circunferência.
É a definida junção do esquadro.
É redondo, é quadrangulado.
Um cálculo encontrado.
Obsessão matemática.
É um círculo de tão exato.
Toda angulação existente.
Uma geometria completa,
um traço divino resultado.
Não pode chamar abraço,
é mais que invasão de espaço.
na verdade é um transpasso.









sábado, 28 de dezembro de 2013

Minha vinda



Enéas Lour

Nem bem
me começam,
já me termino:
desobediente.
Quando me
adulteço
me menino:
"crediente"
Em uma coragem,
mil destinos.
Em uma covardia,
um só rumo.
Asserenada me aprumo,
sem avesso me atravesso.




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Em um pé de vento


 

           Escrevo ao vento. Que rouba estrofes, que destrói versos e leva embora minhas rimas. Já roubou de mim um sem número de contos, poemas e histórias que bem poderiam viver em livros, não fossem suas levas. Carrega para longe de minhas mãos o peso que quero dar, escrevendo, e não mais o assenta. Arranca os acentos de minhas palavras ressignificando-as como acha certo.
          O vento, ah, o vento! O vento não tem sido bom comigo. Leva minha voz escrita, leva o que demais me pertence, escamoteia o que de mais eu quero. Há pouco falava de amor e o que fez o vento? Ele, ardiloso, se achegou vestido numa brisa leve a acariciar- me o rosto e quando vi tinha desviado minhas palavrinhas mélicas do poema. Insisti, mudei. Falei de uma realidade mais dura e ainda mais descomposta (se é que existe) que a do amor que vivi travestido em palavras doces. Ele, então, veio uivando e babando como um cachorro louco, rasgou letras, trocou regras gramaticais, engoliu meu dicionário. Queria dar notícias dissimuladas, afinal sou jornalista, pensava eu. Mas o vento impediu. Dessa vez veio bento não sei de que lado: desolou todos os pobres de minhas enchentes, derrubou meus empoderados políticos, golpeou minhas economias, acelerou tragédias iminentes. Guerreou comigo. Fez como quis.
         Antes, as retiradas do vento ficassem ali, no campo da poesia, ou até da realidade da palavra vencida, a escrita. Mas não para por aí. O vento quer ainda mais levar de mim. Acredita? Crudelíssimo. Por último, tem tentado afastar meu corpo franzino de quem melhor o tem amado.
 
 
 
 
 

Eu presa de um passarinho



                                     
            Hoje vivi verdades em um sonho. Em uma de minhas janelas apareceu um beija-flor. Veio vindo, assim, meio melindrado e num sobe desce maneiro e contínuo se aproximou de mim, devagarzinho, quase sem querer. Diferente dos beija-flores, coloridos, exibicionistas, brilhantes, que dão piruetas e voam lépidos  de um lugar para o outro, bem travessos; o que surgiu em meu sonho, estava feinho, opaco, letárgico. Ele não era um beija-flor  tão pequeno, tinha umas penas arrepiadas, úmidas e estava escuro. Escuro por fora, escuro por dentro. Contrário a isso, tinha nele doçura, força, intensidade, delicadeza, altivez, agudeza, e porque não dizer; o atrativo e a nobreza próprios dessas avezinhas. Beija-flores são ariscos e este não era diferente. Ainda assim, ficou ali me rondando. Não ia embora.
           No sonho, sugeri uma guarda. Assoviei chamando baixinho como se chama pássaros. E eu sei chama-los. Estendi o braço com o indicador em riste, também como se faz a passarinhos, e ele veio. Pousou em minha mão, como se, programado. Cravou suas unhas em meu dedo indicador. Estranhei. Doía. Mas eu, de curiosidade, o deixei ficar. Admirada daquele passarinho meio desequilibrado agarrando, apertando meu dedo, não o espantei como quis de início. Acariciei sua cabecinha miúda enquanto olhava seu bico de agulha que também imaginei: sabia ferir flores. De quantas histórias teria sido formado...tantas flores já passeadas, tanto sugar, tantas chuvas, tantos medos, tanto desafeto aparente se atrelava  a ele. À medida que ia imaginando sua vida, ele se grudava ainda mais e machucava meu dedo, como se adivinhasse meus pensamentos. Ele pesava, incomodava. Mas o prazer de ter um pássaro na mão envaidece. É lindo. Apesar de ter uma energia carregada e vir de realidades tão duras como parecia, e até pelo bichinho tão arisco que se achegou a mim, deixei que ficasse no calor do meu dedo.
            Com o passar do tempo e eu de braço dolorido, dedo furado pelas suas unhazinhas afiadas e já com minha cabeça cansada de significa-lo... diria a Psicanálise de um meu "furor interpretativo" e de um outro meu "furor curativo", afligi-me. Eu achava que tinha as melhores perguntas às respostas dele, todo o tempo. Sabia, por exemplo, que minhas mãos fechadas em concha, aquecendo-o, seria melhor que meu dedo sangrando e repassando só aquele calorzinho. Mas ele insistia e continuava trêmulo, me cortando, obsecrado e com frio. Deixei que entrasse em mim, emprestei meu psiquismo. Esvazie-me de mim e dei lugar a ele. Ele precisava dessa "transferência" e se negava a falar. Claro, era um pássaro. Pássaros não falam: cantam, lamentam. E naquela fantasia toda, eu, ali, de frente para mim, comigo no dedo, encantada e amante, lembrei Rubem Alves dizendo que "amar é ter um pássaro pousado no dedo e quem o tem, sabe que ele pode voar a qualquer momento." Ali estavam um pássaro e um voo sempre planejados, os dois; eu pensava. Também, por outro lado, vi frieza em Vinícius de Moraes expulsando o pássaro que apareceu na janela dele: "Para que vieste na minha janela meter o nariz, se foi por um verso não sou mais poeta, ando tão feliz!" Será, Vinícius, que ando infeliz como estava quando começou a ser poeta? Ah, sabe Deus... Não sei mandar embora, em verso, quando me aborrece uma senhora, que dirá um passarinho!
           A Ciência diz dos beija-flores uns famigerados, que despendem muita energia e precisam repor esse gasto todo o tempo, por isso buscam doce, flor em flor. Parece que a Ciência os trata como a "molecagem" em pássaro. São de brincadeirinha. Mas no sonho, ali, aqueles olhinhos brilhantes eram reais e afundavam em mim. Já havia lido que beija-flores enxergam as cores como nós humanos, divisam várias tonalidades.  Vão além, detectam raios ultravioletas que nós não distinguimos com nossa visão parca. Mas, e...? E eu? Eu, bem, eu...enxergava almas!
          Disseram-me ainda que beija-flor poliniza por acaso, é um aproveitador, um oportunista. Quer o doce da vida e não hesita em busca-lo ainda que por vias torpes. De sua meninice, talvez. Eu o desculpava. Ouvi que só poliniza porque os grãos de pólen impregnam em seu bico e em suas penas e ele os deixa cair, quando procura o alimento. Enriquecedora a visita, pensava: "avis rara, avis cara". Eu o absolvia sempre. Ele, ali, no meu dedo, tudo quanto dele me passava eu relevava. O tempo ia lento e eu estava cansada. Havia interpretado demais e aquela espécie de sessão me causava desassossego. Sinalizei afrouxando a mão, ele imóvel me olhando. Ameacei fechar o braço, ele nem se deu conta. Paralisado, paradinho. Ele não batia asas. Amoleci a mão, desistindo de segura-lo. Gelei ao pensar que iria embora.  Ele tremeu assustado e soltou-se lentamente de mim, como que não querendo ir. Saiu de mim como quem deixa para trás todo conforto. Ficou em volta, voando por perto, agora mais brilhante e revigorado. Saí às pressas para acudir meu dedo machucado.
            Percebo que  não está curado esse pássaro. É pássaro desatinado, não quer se ver bem. Mas vive em torno de mim. Estamos juntos sempre que recorro à janela velha do meu sonho. Ele nem sabe, mas necessita-me,  flor grande, que o sombreia em suas inexatidões ou o ilumina em suas demandas. A mim, isso vem como ganhos narcísicos. A beleza do comensalismo. Bom para mim, bom para ele. Sou eu este pássaro que me sonha. Somos este passarinho que te sonha único e me sonha dividida. Dois sós. Somos tantos. "Sui generis". Singular... Belo e adocicado, insano e feio. Contraditórios. Plurais... Raros e especialmente vulgares. Par e/ou ímpar. Dúbios. Brilhantes às vezes às avessas. Ensandecidos. Iluminados. Inquietos. Sempre um pássaro.





 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Dormindo na semente






Num canto como um santo
professo levando aves em bando.
Voam folhas brancas do meu pensamento,
lento transportar reticente...
Ronda-me, aqui, toda vulnerabilidade.
Ah, meu suposto saber que me arrasta
por salões vazios do meu palacete negro.
Estou estática. Entrevada.
Sigo nua fantásticas catedrais afora.
Trago a inércia do desprazer
E despida - sou toda Tânatos.
Permeio teias adentro. Pontuo.
Recalco como quem descansa
profundo em uma semente.
Calo em veias turvas, azuladas.
Caricaturo personas em pesadelo.
Invalido-me, me impossibilito.
Só tua presença me acorda.










quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Todo verbo


    
                       EM CAnto                                                                        entoaDA  







                       enCANtada                                                                encanTOada     




                                                                                                                                                                        

domingo, 10 de novembro de 2013

Pronomes





De quantas somas,
mulher, 
de quantas somos?
Quantas e quais umas 
nos moldaram uma qualquer?
Quais delas 
nos fizeram "a" mulher?
Que acesas, que veladas...?


sábado, 28 de setembro de 2013

Serenando

                    
                          Sereia minha,
                              serei teu _ minha
                           encantada serás. Mas
                          aceita-me do meu jeito...
                        Não me queiras, de capricho,
                          espelhado no teu eixo duro 
                           e nessas águas doces tuas.
                            Vem, nada tu, por mim.
                              Nada pelo meu corpo,
                                 nas minhas veias
                                  abertas para
                                   teu deleite.
                                   Deixo-te
                                    seguir
                                     meu
                                     leito.
                 E enquanto    ouço maravilhado
     teu  canto, que eu       possa ser, para o teu
   espanto, o calmo            veio do teu rio, a travessia
da tua  lua cheia                         de sonhos amarelados.

                
                  


  

sábado, 14 de setembro de 2013

"Affair"





Deus nos proteja de nós
te proteja de mim
Deus nos procure
Pro esteja, te leve,
livra-me de ti
Deus nos cure e dê fim
Deus socorre e só corre
Enfim _ que Deus nos dê
Devolva, envolva, volva
Por estar contigo
Deus vinga, enciúma
Porque está em nós
humilha, recrimina
maltrapilha, maltrata
machuca, deita culpa.
Deus te evita, me desabona
Deus é viga forte
carrega pra longe a leveza
Desnorteia, desencanta
Te descarrega em minhas costas
Diz que te carrega nos braços
Deus não sabe o que diz
engessa teu peito, me enrijece
Deus não tem jeito
Deus mente pra mim,
vilipendia na madrugada
Deus não sabe o que faz,
nem faz nada 
Pois nem se quero,
sequer, Deus sabe.
E eu já nem sei claro,
o que quero de Deus.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Chão nos ares

 
 









Tenho pés desobrigados
Carrego uns passos tortos
prometo uns passos retos

Ah, estes meus pés sem travas,
de quantas asas serão dotados...







quinta-feira, 25 de julho de 2013

Descaminhos

 
 


Pra que saber de tua estrada...
se teus pés para mim estão mudos
e minhas mãos para ti, caladas?






segunda-feira, 1 de julho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Vida de passarinho


  


Meu pássaro encantado
tem alma infante
ele sonha gigante.
É pássaro colorido,
de pernas pro ar
faz ninhos quiméricos.
O pássaro que te falo
 briga como um galo,
tem o bico torto.
Voa comigo asas mansas
e o peito é cheio,
abarrotado de melodia:
uma para cada dia.
Mas... e coração de ave?
Tu queres saber como é?
É um cisquinho de nada
e tem asinhas nele.





sábado, 8 de junho de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Sarama "guiada"....

 



Saramago fala mais por mim e de mim, hoje, que eu mesma!

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago







domingo, 24 de março de 2013

Retrato

 
   
E por falar em reflexos e em retrato, é em Cecília Meireles que me espelho quando me empresto ao poema ou dou de mim, à minha poesia.
 
 
 
 
 
 
 Retrato
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
 
Cecília Meireles
 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

Luz das estrelas



 
         De quem é a luz que pousou em meu corpo? Acordei iluminada. Ouvi quando passos apressados andaram em volta de minha cama. Tive a sensação boa de ver tuas costas largas. Antes, porém, senti um mansinho de mão tocando-me os cabelos suados. Meu corpo foi se inclinando ressabiado e cauteloso para perceber-te completo, mas não te vi. É que não conheço bem quem sorrateiramente ronda meus sonhos e sono, desarranja meus lençóis, procura-me, advinha-me e presumidamente me desacoberta em minha cama, me acha e eu me perco. Acordei acesa. Eu tinha um brilho, um laser atravessando de ponta a ponta meu corpo. Quis saber quem da escuridão de meu corpo apagado, teria pena. Quem a mim quereria ver - se nem eu quis - ver-me luzidia?
         Ah, deixa-me na escuridão a que me proponho. Deixa-me, pessoa. Caminha teu caminho e não ronda meu quarto escuro. Anda mais. Espreita-me de jeito que não me irradie tua luz. De longe, bem longe. Minha solidão é avessa a se ver assim, muito clara. Minha fragilidade é envergonhada. Meu coração é poço enlameado de mágoa. Meu orgulho tão artista, coitado, fugiu correndo assustado. Minha ingratidão ficou desapontada. Eu peço, tira teus olhos luzentes de meu corpo. Tira tuas mãos brilhantes da minha cabeça. Esqueça. Como hás de me apagar agora, se tudo é lume quando te achegas? Toda fogueada, ardo em tua cintilação. Por quem te tomas, que faz em minha floresta escura uma clareira apontando meus erros aos Deuses? Por que vens enquanto durmo te acovardando diante de meu negrume e me entorpeces de clarões... E me confundes a vista, e arranhas o meu espelho com teus raios doridos. 
         Sinto como se todas as estrelas entrassem de uma vez em meu quarto preto, quando surges. Quem quer luz? Quem te disse que dela preciso? O teu claro prescinde meu escuro, ou depende dele? A que vens? Chegas na calada e foges quando dou por mim esplêndida. Não assumes a intenção de teu fulgor, de tua atitude de aclarar. És uma estrela invasora ou uma constelação delas assumindo forma humana ou ainda, és forma humana só ao meu lado. És grande e brilhante porque sou uma tua inversão, um reflexo teu versão mulher. Brilha tu, acolá; estrela imensa. Seja-a de mais longe, por favor. Afasta-te. Ou de mim depende tua evolução para deixar poeira estelar? O meu corpo te evolui, meus sentimentos te avolumam, meu afeto te soma e minha verdade escura te desorienta, te reverte aos deveres de novos começos. Quer minha sombra para que não te torres no rútilo de tuas vaidades. Sim, precisas de meu corpo escuro para dormir tua luz intensa quando a noite te vem espavorir. Sinto; és meu bem maior, mais rico, mais preciso, e me luz, e me incendeias e me incomodas. Como me incomodas!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Me beija-flor





O beija-flor vive de floreios em sua realidade
Eu vivo de poetar em floradas racionais o que sinto

Tu vives de acordar a conveniência de teu sonho em botão
Deliramos em conjunto
Alucinamos coletivo - o beija-flor, tu e eu

Numa vida enfadonha e fantasiosa
estouramos bolhas de sabão coloridas em nossa fronha

Teço teias vívidas com fios de tuas veias
Enredo-me no azul do teu sangue lento meu domínio

Na papoula, o beija-flor zonzo sonolento

No emaranhado de nossa presença
No fim de meu túnel à luz da tua verdade

O pesadelo da pertença   

Possuo-te, mas não sou tua

És meu, e não me pertences...

Dia virá quando o beija-flor, tu e eu, exaustos
Sem o torpor que a papoula deu

Sem a tendência do acorrentado Prometeu
Viveremos de vida, numa grande bolha colorida

Sem hora dividida, sem tempo definido, sem sombra de ida
Com flores, méis, beijos, anéis e um beija-flor sóbrio

Longe dos véus, longe e num céu que nos ronda e quer





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Caleidoscópio

 
 
 

          Havia passado a chuva,  a trovoada, o temporal, mas o vento gelado ainda grudava na pele. Seus olhos vermelhos pareciam duas poças grandes d’água em um colinho de açucena. Desequilibravam e balançavam o homem, como a água da chuva faz com o copo dessa flor. Arrisquei uma tosse, não saiu. Olhei para o lado e me vi atrelada ao destino que acabava de se inventar pra mim. Estávamos no carro e tudo lá fora era molhado de tristeza, e eu pensava no quanto tudo ali dentro era seco da alegria que um dia sentimos juntos.

         Olhei o caminho longo que agora se formava da janela. Rumos estranhos, mal traçados. Todos os galhos das árvores lembravam sobras de trilhas que não tinham um começo visível e nem se podia ver seus fins porque as folhas impediam. Incerto futuro, pensei. Recorro sempre às chaves em minhas inseguranças, lembram-me saídas e chegadas. Segurei-as entre meus dedos tensos, com certa frouxidão. Precisava da certeza da ida e o barulho das chaves provocava  isso em mim. Aquele tinguelingue quando elas esbarram umas nas outras, arranham minhas horas. Sempre foi assim, percebo meu tempo nas chaves, pelo balanço delas vejo se ele está vencido ou se começa a ser contado.

         Dizer o que, quando as chaves já me diziam tudo e quando o momento roía-me os calcanhares? O meu ir, gritava dentro e só eu sabia o quanto gritava alto, quase que dava para se ouvir de fora. Olhar o longe era a arma contra ver do canto dos olhos doces, desaguar o tudo represado e ainda dificultar a descida da minha montanha. Ah, a montanha... Uma descida sonhada, bem-vinda, que pensava eu, seria uma disparada como um esqui deslizando na neve, um escorregador sem fim, uma bicicleta sem freios, um mundo sem atalhos, sem curvas. Meu coração moleque de rua iria descruzar os braços, destravar as pernas, pisar macio os pés sujos e correr esvoaçando com o vento os cabelos suados, rumo ao novo caminho. Ele queria experimentar a vida irresponsável de sair na correria, sem alma, sem calma, desarmado, desimpedido, descompassado, desatrelado, despedido, e todos os “des” mais existentes. Ir, ir e ir. Deixar para trás os idos, os tidos, os vividos, os investidos, os lidos e buscar os “rá” que se formariam a partir dali.  Abri os braços e a vida  foi me invandindo, me inflando  e se acomodando em mim. Pus uma venda nos meus olhos de enxergar o passado e abri uma fenda no futuro.