sábado, 13 de abril de 2019

"Se vou"



 
   "Carrega bagagem em excesso",
    _  Alguém me diz, em reprimenda;

    Riposto que são meus pertences.
    E eu me pertenço tanto...
 
    Tanto que, quando vou,
    Vou plena. Vou por inteiro.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Sinuosidades"


     Água plácida,
     correnteza,
     queda d'água, não importa.
   
     O poeta será sempre
     pedra vírgula
     a pontuar curva de rio;

     Nos meandros,
     a pedra poeta para
     à espera de Fântaso,

     (e ele, manso, se apossa)
   
     e invade, e intensa, e alma
     os mistérios que moram
     depois da tortura de um rio.
 
 
   

 

domingo, 7 de abril de 2019

Quaresma e sugestibilidades


         
         E no supermercado, a mãe com a calculadora na mão não ouve o papo de seus pequenos, os dois por volta de quatro e seis anos de pura experiência.
        Seção de condimentos e especiarias. O cheiro do cominho, tomilho, pimenta calabresa, manjericão, colorau, gengibre, hortelã, salsa, orégano, tudo junto e misturado'. Açafrão, menino, canela, eu, cravo, noz-moscada, mãe, coentro, pimenta do reino e 'tutti quanti'. Eu me vi Cabral a caminho das Índias. E a gente lá, 'together and mixed', a descobrir brasis, a procurar temperos para nossas vidas.
       _ Mamãe, o que é isso nesses saquinhos? Diz o maiorzinho, camisa do Chelsea.
 A mãe na calculadora Samsung, só ouve preços.
      _ Mamãe... ô, mãe...! Abaixando a voz, desiste.
O menorzinho, 'style Neymar,' camisa do mesmo mar do Norte (do Paris Saint-Germain), responde com a propriedade de um 'gourmet': 
     _ Eu sei. Isso é peixe.
     _ Não é, isso é perfume.
O pequeno insiste:
     _ Isso é peixe... não conhece o cheiro?
O maior não quis dar o braço a torcer, mas viu que o pequenininho tinha ali qualquer tanto de razão e arrematou logo a conversa:
     _ É. É perfume de peixe, seu ignorante.
      E eu em pensamento: louro não, camomila não, alecrim não... achei! achei a erva-doce. E o Brasil é assim achado. E o Brasil é assim, um achado. E o Brasil é assim ou assado.




quinta-feira, 4 de abril de 2019

"Do que vem de lá"


                                             
    Dos deveras,
    dos deveres,
    dos devoras,
    
    dos 'déjà vu',
    dos défices,
    das demoras,  
    
    dos devires,
    dos devires e
    demais devires.          
    

 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

"Das levas"


                                          

      E que tanto amar
     foi esse
     que no instante de ir, 
     quase nem coube
     nos olhos da morte.




Em um jardim do mundo



         bodoques 
      bordunas
      "in stand by mode"
      
      botões
      batons
      a postos

      as folhas
      do livro da vida
      outonam
      
      na roseira
      a rosa vermelha
      abril em paz 

      



domingo, 31 de março de 2019

"Inexatidões"



  Aqui
  pelos meus becos,
  muros e paredes
  não me encastelam;

  Lá e cá,
  as tantas mulheres
  que me habitam
  andam imprecisas;
 
  Não se estancam.
  À vontade,
  transitam inexatas,
  sem dar lugar ao inflexível.




"Coisas da vida"



                         
                          

     "Na vida tudo tem seu preço..."
      sua pressa,
      seu peso,
      seu passo,
      sua pedra,
      sua prenda.




terça-feira, 26 de março de 2019

"Depois"


Quando tu ias,
meu tempo
se desorientava.

Noites
não dormiam
aflições,

Madrugadas
abriam bocas
quebrantadas,

Manhãs
acordavam
anuviadas,

E a tardinha
ia longe
para te ver
de perto.

Hoje
quando vais,
as noites
se deitam ninadas;

As madrugadas
ganham colo,
as manhãs
me chegam tintas,

E a tardinha
já nem precisa
se afastar
tanto de mim
para buscar-te.



quinta-feira, 21 de março de 2019

"We"


   Essa vida
  já me calou
  tanta gente,
  meu bem,
  Só não quer
  calar nós dois.





quarta-feira, 20 de março de 2019

"Anoxia"



     Suporta,
     se importa,
     se porta.
   
     Pobre mulher:
     sem janela
     nem porta.

   
   
   

terça-feira, 19 de março de 2019

"Romã"



  Amarelo rosado:
  é romã a maçã
  do teu rosto
  que seguro em Palma,
  na palma
  da minha conquista.

  E passo
  horas assim,
  a te laurear
  cascas,
  sementes,
  lascas
  e a fruta vermelha,
  chapiscada
  de tua luta interna.

  É trono,
  coroa real
  de rubis;
  Roma
  é teu lugar
  em mim:
  palácios Flávio,
  Augustano,
  Quirinal,
  Domiciano,
  Tiberiano,
  Laterano.
  És-me epopeico.

  És romã.
  E na fruta,
  e em mim,
  e em Roma,
  Casa Dourada,
  adorada casa.






quinta-feira, 14 de março de 2019

Fim de flor



 Murcha, ela
 quis sossego.
 Cansou-se
 do ser flor;

 Se despencou
 do pé
 e saiu de cena
 como se a suspirar
 mussitasse:
 ... a-çu-ce-na...!




sexta-feira, 8 de março de 2019

Os peixes do feminino



Há um sono mulher,
peixes dormidos no feminino, 

Mas que de olhos arregalados,
nadam semimortos
por glaciares Antártida;

Açaimados, nadam 
pela política da América;

Abstrusos, nadam
pelas minas de pedras 
e pelo animal África;

Que de olhos aguados
nadam pela Ásia,

que nas artes
e na moda Europa,
nadam desolados;

E na Oceania,
e onde mais se acham,

fogem de arpões,
quebram fronteiras,
se indispõem com demarques;

E embora sonados,
Sempiternamente, nadam.
Nadam lá dentro do feminino.

E ainda que nunca acordem
onde em sonhos estiveram: nadam.





terça-feira, 5 de março de 2019

"Jogo de luz"


 Viver é espanto.

 Algumas vezes
 pássaro,
 outras vezes
 espantalho,
 noutras ainda,
 espantalho
 no espelho.

 Viver é espanto,
 meu amigo:

 é espantar-se
 com o outro,
 espantar o outro
 ou espantar-se consigo.




domingo, 3 de março de 2019

"Anfibologia"


     Uma, duas, 
     três... e tantas 
     outras mais...!
     
     Conte-me, 
     ex-amor.
     Conta comigo, rapaz. 





sexta-feira, 1 de março de 2019

Espontaneidades

                                       

   Viu a roseira esmaecida,
   um céu sem róseos
   e ao seu lado,
   uns olhos despetalados.
  
   Sem pensar duas vezes,
   
   escondeu o dia apoucado
   num dos bolsos 
   e do outro, 
   sacou uma noite estreladia.



     

Fantasias


 E neste
 Carnaval, 
 eu de lua, 
 você de só.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Subtrações


   Tinha olhos
   furta-cores.
   Ora roubavam 
   meu vinho, 
   ora me roubavam 
   a brancura d'alma.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O silêncio das minhas mãos



 Juntei fatos, 
 fotos, falas,
 suspiros,saudades,
 ... e enfim,
 tantas palavras reuni,

 Mas não tenho dedos
 que te escrevam:
 todos eles 
 ficam mudos, quando 
 é pra falar de ti.




sábado, 16 de fevereiro de 2019

Olhos vazios



A mulher
abre a janela,
não sente a rua.

Um passarinho
faz piruetas
no fio de ouro
daquele pescoço
quase sem aorta,

O moleque
empina
a cidade na pipa,
e faz cócegas
naqueles
olhos sem graça

E o dia
faz renda
no horizonte
e fura
a tela surreal
de seu tempo;

Mas enredada
no linde
de seu ontem,
nem os olhos
da mulher
atravessam a janela.




Naturaleza da dor



Na boca
vermelho urucum,
a brasa,
a flor da malagueta.

Nos olhos,
a perfídia
cinza azulada
das folhas da embaúba.

No peito
marrom jenipapo,
um gravatá
de abrolhos.

Pés
embaiadores,
passo ida,
passo volta,
num negrume jatobá.

Ao fim,
tinha boca, olhos,
peito e pés urtiga.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Aposta de corrida



  E agora, a postos, 
  meu bem, 
  vamos ver
  quem de nós dois
  chega primeiro
  ao coração
  de outras pessoas? 




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Hedonê



A vida pedia mais.
Casas arregalavam portas, 
E um céu, suado, 
deitava suas estrelas no mar.  

No meu sonho,
ele abria as asas
e me voava.
Era um anjo de mim.





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

"Quando vem a distância"



         Foi ficando longe, desprendia-se de quem ela amava e de quem odiava, se afastava do doce da fruta e das florzinhas de jardim. De modo igual, soltou o vivido e a esperança do vindoiro.
         A cada dia se distava mais dos torrões de terra, do caule das árvores, das folhas, das rochas, do seu formigueiro. Apartou. Foi-se embora da formiga que era.  




sábado, 9 de fevereiro de 2019

Traços e impressões


Dia de mudices:
moleques amuados,
cravinas caladas,
pássaros passados,
cidade silente;

Parece que o dia,
em seu pejo,
abriu um sumidouro
na corrente água
do desejo das gentes.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Pau D'Arco & Brumadinho


"Acostuma-te à lama que te espera",
ele diz.
Acostume-se, meu amigo, eu digo.

Acostume-se.

E se não à lama dos Anjos:
de viver entre feras, e por erro,
o inevitável desejar-se fera;

Àquela lama dos Deuses:
de ser tão e tanto de carne e osso,
de até morrer pelos deuses do ferro.




sábado, 2 de fevereiro de 2019

Os tempos verbais nas árvores




     Todo dia 
  a vida alada
  nos cala
  passados
  com presentes,
  
  Todo dia 
  a vida assobia
  em futuros
  frutos furta-cores
  travestidos
  de presentes,

  Todo dia 
  a vida
  em passarada
  nos (en)canta
  presentes. 




   

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Vigília

 
    Levanto-me tonta,
    ensonada
    de um amor insone
 
    que não se deita,
    que não dorme,
    que não some.

 


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

À sombra das rosas


                                          

   E numa noite
   mal dormida,
   o sol acordou
   os homens
   que despertaram
   todas as mulheres
   que dormiam
   dentro deles.
   Aí, então,
   o mundo foi luz.

 


Asas ao vento II



  E quando
  nossos pés
  criam asas,
  pode ser
  a mão do destino.



Arrebentação



 Sempre que
 sigo caminho,
 volta e meia
 eu me cochicho:

 não sou eu
 a deixar
 os meus passos;
 muito mais,
 meus passos
 se vão de mim.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Lázaro



   Escutei
   o homem,
   ouvi
   sua chaga.

   Escutei
   o homem
   e sua falta
   de gaze.
 
   Ouvi o choro
   da criança
   naquele pulmão,
 
   Ouvi
   o barulho intenso
   quando
   as rosas do tecido
   caíram no chão,

   Quando
   a mãozinha miúda
   da criança
   largou
   a seda rosada
 
   E escorregou
   da barra florida
   da saia da mãe.

 
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Sementes do amanhã



 O ano novo
 de pés limpos
 traz sementinhas 
 nas mãos
 e confiam-nas 
 aos nossos pés
 sujos de terra. 





sábado, 29 de dezembro de 2018

Olhinhos de canto



  Eu sei o amor
  que te causei.

  Dance
              os olhos

  Não
  endureça a face,

  Faz olhos
  de valsa

  Uma vez mais,

  Baile
            os olhos

  Mais,
  mil vezes mais:

  Dure seus olhos
  moles em mim.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Seres e não seres

  

   Tem gente
   de tudo quanto há jeito.

   Gente de lua,
   gente da terra,
 
   Gente que é de fora,
   gente que é da gente,

   gente do mundo:
   que não para de rodar,

   Gente de açúcar
   que nem pode sair na chuva,
 
   Tem gente melosa,
   de tão doce que é,

   Gente de um lado e do outro,
   tem gente do meio,

   Tem gente de barro
   (parece santo)

   Tem gente tipo banana:
   gente de ouro,
   gente de prata,
   gente que não vale nada,

   Tem gente de bronze
   (morta em pé)
 
   E tem gente de ferro:
   que esfria e machuca gente.
 




"Desembaraços"



        Não tenho medo
   quando um 'se'
   se aproxima
   de alguma
   das minhas certezas.
   Acolho-o, sem juízo. 
 
 
 
 
   
   

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

"Tristesse"

   

     Pela tristeza
     que se ofertavam,
     era um
     casal descrido.
   
     Ele tinha
     um sorriso morto
     (morno ainda)
     na boca fina.

     Ela, desde menina,
     enforca seus risos
     nos laços
     de golas 'puritanas'.



   

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Poema serviçal



  Quando
 palavreei
 ao mundo
 o que te sentia
 tudo mudou,

 Todo calo
 gritado
 que em mim
 te repetia
 calou sua dor.




segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Negrumes


                              

 Invocou-me
 o escuro.
 Procurei cercas,
 não tinha.

 Tateei
 aquele
 outro rosto.
 Não cri.

 Desigual.
 Sem raias,
 havia um fosso
 sem fim
 naqueles olhos pretos.

 Ateia, entrei.

 A partir daí,
 meu bem,
 nem sei mais
 quantas vezes
 errei teu caminho.





domingo, 9 de dezembro de 2018

Pelo caminho


 Não existe atalho
 para o coração do outro.

 Incerto caminho,
 estrada deserta.

 Destarte,
 e sem vizir,
 temos que passar
 pelos olhos,
 pela cabeça
 e pelos ouvidos
 de quem onde
 queremos ir.




sábado, 8 de dezembro de 2018

Frialdade


 No dia
 em que eu te disse:
 "meu bem, me esqueça",
 a noite gelou
 dos pés à cabeça.





sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Cerca viva


 Eram coloridas
 as asas
 dos teus cuidados,
 encheram meu viveiro
 de vaidade

 Asa de emboscada,
 teu desejo:
 arranhou meus quereres

 Toca de áspide,
 tua conquista,
 quase
 minh'alma cordeira
 corrompeu

 Teu ciúme,
 vala profunda,
 menestrel,

 e o anel que tu me tinhas
 folgou-se, se perdeu.




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Na vinha



De dentro da gavinha
de uma videira
eu te sonhava,

E espiralada
mudei-me
para o seu lado

Suei seu 'vinaigre',
agarrei suas ideias,
prendi seu tom suave

Ensaiei seu gestual,
encenei seus pesares:
eu te estive

Pela primeira vez,
vida, eu fui em ti.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Assenhoreamento



 É ensurdecedor
 quando
 o rosicler
 da minha
 madrugada
 invade 
 o nevoeiro
 do teu peito