segunda-feira, 30 de março de 2020

Esconde-esconde



Vem,
brinca comigo,
Lua nova,
Nós duas meninas

Tu te achas
entre folhas
de árvores:
iluminas

Às cegas,
eu me mostro
e escondo-me
em folhas de livros

E tu não me pegas



terça-feira, 24 de março de 2020

Vidinha de artista


O faro
O farol
O faroleiro

A luz da estrela

O fado
O fadário
O enfadonho

A sombra da lua

A face
O faceiro
A façanha

O escudo nos olhos

A fera
O feroz
O ferreiro

O espeto de pau

A faca
O faqueiro
A fraqueza

O breu do peito

A fala
O falante
A falácia

As pernas da mentira

A fé
O fá
O fim

Que pena d'eu
Que dó de mim...!



quarta-feira, 18 de março de 2020

"O dano itinerante"



      Espalha no ar,
      Passa de mão em mão,
      Lacrimeja olhos,

      Ancora-se nos batentes,
      corrimãos e trincos
      e nas chaves em molhos,

      entra por baixo das portas,
      invade janelas,
      se mete nas fechaduras,

      Sobe pelas paredes,
      adentra as rachaduras,
      ela abrenha as redes,
   
      É demais infiltrável,
      a maldade humana.
   


     

terça-feira, 17 de março de 2020

Um português

                           

    Ele era feito
    azulejo antigo
    raro
    belo
    pretendido
 
    Era frio
 
    E tal qual
    o azulejo antigo
    muitos ciscos
    absorveu
 
   
 

segunda-feira, 2 de março de 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Dupla negativa

  Se te agrada,
  somos iguais:
  nós dois
  amamos
  essas coisas
  que não acabam
  em nada.



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Minha absoluta incerteza



Sonha doce
em minha eira,

Achega-te,
Beira-me,

Pousa à sombra
da minha asa, copaíba, aba;

Carambola, ingá, cajá,
manga, mangaba;

Em meu cerrado, a flor da gabiroba
abre saudades;

Já penso ir-me embora,
E já vou indo.

Somos frutas ímpares
em pares;

Quero-te solto 
em meu chão,

Te quero 
preso nos ares,

Quero-te 
ilha, liberto,

Te quero (de longe)
Bem perto;

Fruta desverde
apensa ao pé,

Fruta madura
desprendida;

E digo que te quero, eu,
Logo eu, que tenho gasto
tanto adeus em minha vida...!



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

"Num jardim da vida"


                           Resultado de imagem para manacá flor
       
     Lá lavandas cheiram
     sem rima
     
     Ali lírios lívidos
     aliterados
     
     Cá o manacá
     cachos de amores roxos
     suspensos a nos machucar 
     
   
   


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O onde



Madrugadinha:
há escuros
nos nossos jardins;

Canteiros dormidos,
Margaridas mudas,
Narcisos cegos.

Um no outro,
Acendemos as luzes
de nossas mãos,

É então que
nossas mãos luzidias,
falantes, ditam os caminhos...




domingo, 16 de fevereiro de 2020

"O espetáculo"



              Num pé só
              ela rodopia,
              Corrupia tonta,

              Voluteia,
              volve,
              volteia,

              Árdega,
              sôfrega,
              embutida,

              Saci,
              Fouetté,
              Gravita em si.
           
              Sem freios,
              gira, a vida.
           


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

"Più o meno"


       
Brasília
luzia
e escurecia

A quadra
entre a noite
e o dia
           
A vida
meio cheia
meio vazia



O peso da fé


                                   

         Ah, benzinho,
         que vida cara...!

         Meu bem,
         que vida
         que nos custa tanto;
       
         Custa-nos crer
         no que passamos
         juntos;
     
         Custa-nos crer
         no que vivemos
         separados;

         Custa-nos crer
         no que viria;
       
         Custa-nos crer
         que acreditamos
         em nós dois um dia.

     


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Qual é a sua África?




Que dezembro riu,
que amorenou meu amor assim?
Qual é a sua África?

Que mar se abriu
que você, caminho,
apareceu?

Você veio vida vento,
meio sem graça,
meio reza, batuque lento,

Traz a sorte, mais que isso:
raça, pimenta, encanto, 
toda cor, todo feitiço;

É muxongo com abará
Búzios com agogô,
berimbau com cafuné,
acarajé com tambor

Nossa história e tua fé,
Cá comigo e Caculé....!

Tudo do seu mundo negro
É lua branca no meu mundo;

Vem, risca meu chão
feito santo,
Branqueia outro riso meu,

Põe minha poesia
Na mala, na cama,
diz que me ama, eu acredito;

Põe meu escuro pra dormir lá fora,
bota meu sonho tristonho
embaixo da asa, leva embora,

Assopra no meu sono, moreno,
O amor existe,
Vi o amor inda agora,

Ah, meu preto,
Da boca de amora,
O amor mora por aqui.  






quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Presente.




A noite caminha para o fim,
Na madrugada
pensamentos ciganeiam
ruas compridas,
labirínticas,
mal iluminadas:
Sou eu tua insolente insônia,
Santuários, umbrais;
Um ás, uns ais.
Volteio artístico
na finitude
de teus sulcos cerebrais,
Glutinosa,
viva,
Sou clímax:
cume da tua narrativa,
látex no teu córtex.
Teu cumprir.
Ando teu infinito estar
e deixo-me
escapulir derretida,
salgada,
no contrair da tua face,
no escuro do teu lugar.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O emerso


                            

               O tempo nada pra longe as velhas histórias e com a brisa vêm novos alcances. Ouço conchas. Hoje quando me perguntam como ele era, digo que era um tipo qualquer, comum, simples: tinha corações tatuados na planta dos pés, era cheio de alturas e de parcas grandezas.





sábado, 1 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Roda lua amor roda lua



Todo amor
veste-se de lua
e faseia:

Míngua,
é novo,
cresce
e é cheio...

e míngua,
e é novo,
e cresce,
e é cheio...

É do amor e da lua
esse saracuteio.




quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Meus sobejos

   




     Em ciscos silábicos,
     por cartas de amor ventadas,
     meus dias se vão
     por debaixo da porta,

     Em cinzas de letras,
     como livros na fogueira,
     meu riso vira carvão:
     ironiza o branco dos meus dentes;

     Em restos de mesa,
     minha falta de fome
     espalha migalhas de inanição
     na toalha de rosas desfolhadas

     Em gotas borrifadas
     os sentidos evaporam-me,
     e em nuvens cinza solidão
     sobro-me aqui, em partes.
 


   

   
   

sábado, 25 de janeiro de 2020

Os inanes




            Andavam em canoas furadas, usavam roupas rotas dentro de si mesmos e tinham os corações esburacados.
             Ali,toda luta, ninguém parava dentro deles. Pessoas se seguravam, agarravam-se como podiam, mas vazavam pelos vãos das canoas, das roupas, dos corações.
             Dali, pessoas escorriam álgidas e gotejavam de onde, sabe-se, nunca conteria alguém.






sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Fogo amigo




  Um fogo vinha
  das bandas de lá
  É labareda nos olhos
  que todo
  sol nascente dá





quarta-feira, 22 de janeiro de 2020



    Eu
    pimenta
    ardo-te

    Tu
    cebola
    cega-me

    Sais
   
 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"Linguagem"



Não é exclusivo
de nossa língua,
também
outras línguas diferentes
podem
dar com a (nossa) língua nos dentes.




segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Adequações - Do livro Gado Cigano



Moço, moço,
vá embora não.

Tenho uma
poesia
na cabeça,
e na boca
uma canção.

Mas de tudo
se queres ir,
não tem jeito,
não sou eu
a te obstar.

Minha poesia
cabe em
qualquer peito
e a canção
que trago
se assenta
em todo lugar.




sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Claro escuro




Morte, tu que és tão forte...
Quão firmada, és.

Pousa crédula na tua força,
a lâmina célere
invasora de sonhos dos 'eus',
Que rasga a pele dos sentidos
e pui a organza clara
da crença num Deus.

Morte, tu que és tão forte...
Absoluta.
A alma a qual queres,
a nenhuma perdoa.

Peço-te _ como se faz a um Deus _
Voa, aqui, pássaro sombreado,
irônico, travesso...
Versa de vez a tua malvadez.

Discrepo
da tua maleficência,
Da tua boa eficiência
de dar o amargo
'in dribs and drabs',

Do inferno impérvio
donde sai tua ira, não tardes,
Vem!
E liberta, e livra, e libera
quem no sal arde;
Não retalhes mais o espírito,
não flageles mais a carne;

Morte, tu que és tão forte...
Absoluta.
A alma a qual queres,
a nenhuma perdoa,

Morte, tu que és tão forte...
aferra os sofreres, limita:
prenda-os na vasta parede
que separa os dois mundos.





quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

"Imperdoável"



A dor dele brilhava
feito purpurina
em pó:
grudava nas pessoas;

A dor dela,
gás lacrimogênio
em quem a via
desmoronar;

A dor do menino
era acastelada,
dor guardada em pote.
Moraria n'alma, toda vida.




sábado, 9 de novembro de 2019

"Flexão grau da palavra"



No ouvido dela,
faça barulhinhos,

Na cabeça dela,
faça barulhos,

no coração dela,
faça um barulhão.




sexta-feira, 8 de novembro de 2019

"A solidão da volta"


Seis da tarde:
o escuro.

Numa 'single file',
carros
de olhos vermelhos
faiscados
e de sorrisos amarelos
voltam pra casa;

Brilham
os retrovisores,
luziluzem
as retrovisões...




quinta-feira, 7 de novembro de 2019

"O anel que tu me deste"



'Sometimes',
carecemos do barulho
para calar a boca
de nossos
silêncios eloquentes,

Foi então
que empurrei
a nuvenzinha escura
para um canto

e me deitei
algodão
no seu colo
pena;

Fiz do meu jeito.
Dei asas
às conchas
da praia do Futuro

e fortalezas
de pérolas
se desmancharam
a pulular
do céu peito.





quinta-feira, 31 de outubro de 2019

"Sinas"



Não se estranhe, mulher.
É assim mesmo.
Topo e salto,
O caos, o encanto,
voar alto,
Isso tudo é da nossa natureza.





quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Há mares



Morrer 
de amar

hei 

de amar
ao arrepio da lei




As mãos dela


   Nas mãos
   de minha mãe,
   linhas
   lampejam,
 
   A linha
   da vida
   borda
   o bem,
 
   No colo
   de minha mãe,
   um tecido
   ondula
   em música,
 
   À baila,
   valsas vienenses, vêm.





terça-feira, 15 de outubro de 2019

Barulhinho de chuva


Chuva fruta
Reza
Brota
Estoura gotas
no chão

Chuva
em contas
de vidro
Rosário
Poças estalam
em oração

Chuva
em pontas
Estalactites
O fálico
O cálcio
Chuva clara
dores do não

Chuva mole
Gruta escura
Moça pedra
sopesa
Atura
bruta solidão



domingo, 13 de outubro de 2019

"Analista"


Em minha lida,
eu assopro
(no outro)
os cortes da vida;

E um vento
grato inocente,
sem saber
do meu múnus,

assopra pra longe
o prato de lanhos
que viria pra mim.



terça-feira, 24 de setembro de 2019

"Aparição do dia"


 
   A Manhã
   quando pare,
   traz um sol
   bem grandão
   da barriga,
 
   Depois, a Tarde
   que passou
   o dia interinho à toa,
   vem aqui
   e leva o sol embora,
 
   E a manhã
   nem se intriga:
   traz de volta o sol,
   na mesma hora,
   na mesma barriga...!


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

"Carolina, a menina"



   Fim dos dias
   de feira, de gozo,
   chegava em casa
   contida,
 
   Lavava as mãos
   tão sem asa,
   num devagar
   de ensaboar
   toda uma vida,

   Queria acinzentar
   a poesia
   que a rua lhe dava;
 
   Assim vivia Carola:
   guardava os risos
   do fim de semana,
   estocava
   domingos e feriados
   numa gaiola.
 
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

"Da plantação"



               Quando houve vendaval aqui dentro e árvores centenárias foram arrancadas do meu peito, também muita gente foi embora, não suportou a restada aridez. Mas aqueles a quem toquei com mãos raízes, tendo meu coração na pontinha dos meus dedos, esses nunca se foram sem mim.   

   

Dois solos



Nos olhos, 
poças de ipê-rosa:
tapete denso
de sonhos
no chão 
da moça enciumada.




quarta-feira, 18 de setembro de 2019

"O muro do pedreiro"



      Dias maçantes, os dele. Os pés, sem chão de cimento, iam atravessando o mundo do sem sentido.  A cada degrau da escada suja, suas mãos vazias davam-lhe calos na existência. Olhos poentos, uns risquinhos de aberto _ morada do sem querer ver. Tardezinha da vida, diante do novo muro que se formara fez-se noite em cada tijolo. Esmurrou-se. Esmoreceu, desmoronou-se.   



terça-feira, 17 de setembro de 2019

Dor verde



Jandaiazinha ousada:
de ida, grita seu nome,
... fulaninho, fulaninho...

(que eu nem quero dizer quem)

Ai, ai, ai, jandaiazinha,
vê minha dor de traída:
... fulano voou do ninho;

e lá vai ela nas nuvens,
dando com a língua no bico:
... fulaninho, fulaninho...

(que eu não quero dizer quem)

Pessoas ouvem os gritos,
pessoas ouvem meu ontem...
e tu não respondes, meu bem;

Feito harpia de Prometeu,
insiste no meio do céu:
... fulaninho, fulaninho...

Cale a boca, maritaca,
... fulaninho, fulaninho...
também foi pro beleléu...!



domingo, 15 de setembro de 2019

sábado, 7 de setembro de 2019

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

"Adultice"



Hoje a lua cresce aqui,
dentro da minha casa,
na mesinha da sala;

Em volta da minha cama,
ao lado das estrelas do amar,
Perto de tudo que se cala;

Para que eu não me esqueça,
cresce em cima da minha cabeça,
uma lua envolta em chama;

Cansada dos sonhos de nova,
a lua se põe à prova;
Chama ao factual, a lua que cresce.


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

"Cheiro frutado"



 Cabelos desfiados,
 Passado sem ecos,
 Presente sem desvios:
 meu alegre romanzal.

 Um pé de amor, outro dá.

 Nas mãos, a calma dos pomares,
 Nos olhos, um verde abacateiro,
 No sorriso _ meu anjal _

 Um pé de amor, outro dá.

 E nos braços,
 esse amortecer da paina
 que me abarca eu mundo inteiro.



 

sábado, 24 de agosto de 2019

"Morros"



 Subia a ladeira 
 do mundo
 num devagar adulto
 (ia aos seus)

 Desceu a ladeira
 da vida
 num embalo de moleque
 (foi a Deus)




sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Pianinho"





   Ding, dong... ding, dong...!
 
   Pianinho, pianinho...
   musicas-me ao ouvido,
 
   e me musicas toda,
   quando tocas meu vestido.


Elas por elas


   Era ira.
   E de ira urra,
   brame, berra.

   Avexa,
   faz enxame,
   faz inchume

   Sofre, a mulher

   Birra, denuncia,
   faz queixumes
   Vem a lume a lei

   E sofra, homem.



quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"Tapumes"


 
      Rara, a vida.
      E errar a ida: um caro instante.

      Mulheres, lamento: enroupem-se,
   
      Gasalhem-se perante homens
      que não gargalham sentimentos.

 


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mapeamento


Agosto. 
Lua cheia de mim.

Nuvenzinhas brancas raiam,
povoam minha cabeça azulada.

Na previsão do meu tempo,
o sol aparece rindo,
a lua fura ondas no céu.

Aquilon, vento norte, 
o tal vento forte da revelação,
desempoa, espana meu mapa astral.