segunda-feira, 28 de maio de 2018
"Mea culpa"
E tudo quanto
te amei a mais,
por favor, me perdoa.
Não foi sem querer.
Releve, 'lover'.
Leve-me 'over'.
Perdoa-me muito.
Perdoa-me demais,
foi de propósito
que amei tanto.
domingo, 27 de maio de 2018
A preguiça do sol
Abro o portão, quero notícias de vidas. Abro a rua, dois carros parados. Um casalzinho com filho de colo atravessa uma esquina, esquina parada no tempo à espera desse pequeno de colo passar com o neto. Ou não. Talvez esperando os que já se foram de vez.
E pontas de bananeiras no quintal do vizinho me varrem para um canto, o canto drummondiano: “Cidadezinha qualquer”. Mas longe das Minas e mais perto das sementes, esta não é uma cidadezinha qualquer, nunca será. É um campo alegre. Verde. Imaturo, ainda. E o sol só está com preguiça de esquentar meus braços. Aí, para me injetar vida, vem um carro devagar e me conta de um antigo mourão da porteira: “... uma saudade é dor que não consola, quanto mais dói a gente quer lembrar...”
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Poema ventilado
Biruta:
vento-me
em todas
as tuas direções.
Caber-me em ti
a comportar-me,
bastar-me bastar-te
_ eternos desafios.
Vejo o balanço
da embarcação,
sinto nos cabelos
a rosa dos ventos.
bastar-me bastar-te
_ eternos desafios.
Vejo o balanço
da embarcação,
sinto nos cabelos
a rosa dos ventos.
Não te falto,
folgo,
farto-te.
folgo,
farto-te.
E tu me transpiras.
Suas-me,
há sobejas de mim
por todos os teus poros.
E eu, anjo
em minha lira,
só te cata-vento.
Mais nada.
Suas-me,
há sobejas de mim
por todos os teus poros.
E eu, anjo
em minha lira,
só te cata-vento.
Mais nada.
Abissais
Eu sei,
há
palavras
suicidas,
escorpiônicas.
Palavras
que diante
do aceso
se jogam
dos
arranha-céus
de dentro de mim.
Conheço
dos abissais.
"I know
the dangerous
curves
that silence
does."
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Imisção
quando as madrugadas são morosas,
não são lentas as madrugadas,
há outra presença
quando o dia vem arrastado,
não é o dia enfadonho,
há outra presença
quando as saudades se assenhoram,
não são as saudades a dominar,
há outra presença
quando a melhor compra não sacia,
não é da compra a insatisfação,
há outra presença
é a falta, a falta, a falta, a falta
domingo, 13 de maio de 2018
terça-feira, 17 de abril de 2018
Adultices
Amar é linha
que se dá,
é salto saci
em cima
de infinitudes.
Risco
ao quadrado.
Pedra
que se joga
no céu.
(Amar é toda a absurdez)
domingo, 8 de abril de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
Rupturas
Modelos.
E eles
nem são,
se não nós
a fazê-los.
Lavro
outras tramas,
ouso novas teias,
uso linha
de outros novelos.
Modelos,
por que segui-los,
se o viver
é mélico
desmantelo?
quarta-feira, 21 de março de 2018
segunda-feira, 19 de março de 2018
sábado, 17 de março de 2018
Construções
Nada quis
que me pusesse triste.
E então, para não fazê-lo,
eu quis este desmantelo:
desmoronei a construção.
E me armei
para desamar-te.
Escadas, andaimes, cavaletes
me levaram às tuas telhas.
Meu amor criado, alcancei-te.
Movi estrelas,
rasguei céus azuis.
Desalinhei teus cabelos,
pisei com todo meu zelo,
teu criatório de abelhas.
Defesas,
opíparas defesas.
Fostes intenso, amor hercúleo,
Fostes imenso, amor titânico,
e porque te criei, te sei tanto.
quinta-feira, 15 de março de 2018
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Secretas benevolências
Atiro
uma flor
num mar
de água
salgada
e no mundo
inteirinho,
só eu
sei que,
minimamente,
miseravelmente,
eu o adoço.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Desdém
Sabe aquele
lugarzinho de nada
onde se esconde
pequenas coisas?
Aquilo
de canto de gaveta,
de furo de parede,
de fundo de vaso,
de ponta de estante?
Sabe lá onde fica
o "pode ser",
o "se",
o "pois é",
o "quem sabe um dia"
e tudo o mais que virgulo...?
Então, foi lá que pus suas memórias.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Um cochicho
O mais bonito
era quando
aqueles
olhos compridos,
pelas frestas
da minha poesia,
alcançavam
meu desalinho.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Trinca de ases
Nós. Fixos.
Rijo triângulo
espelhado.
"Tria cordibus".
Corda de três pontas.
Três pontos...
Três reis. Presentes.
Reflexo baço,
o futuro.
Trinitudes.
República trina
e provisória.
Três trinados
doídos
de um pássaro rouco.
Tripássaro sem asas
preso
numa pessoa só.
Tríplice aliança.
Três ases
asas esfiapadas.
O rosário num terço,
a fé nas contas
de nove tercetos
Um "tressé"
de gente
em tiras.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Meninice crescida
e o tempo,
passarinho
rei das pipas,
passa voando
e vai
deixando cair
aqui e ali
uns risinhos
assobiados,
na vida
da gente grande.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
As estadas do amor
Não é
o tempo
que finda
o amor de um,
nem é
qualquer depois,
é o amor
que precisa
o quanto
quer durar
em cada dois.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Vozes aquecidas
Quem já ouviu
da madeira no fogo
os estalidos,
sabe
das cócegas
que eles provocam
nos ouvidos.
Tem gente
assim,
com voz
de estalinhos
de lenha na fogueira.
É uma gente
estaladeirinha
que faz
nossos ouvidos rirem.
domingo, 31 de dezembro de 2017
A noite de ano novo
É noite
de começo,
de ida,
de chegada,
de fim,
de volta.
É noite de.
É noite
de passadear,
de futurar,
de presentear.
É a noite
em que
os tempos verbais
se veem.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
A chave e o ato falho
Voltou. Chave nas mãos, olhou a "casa" retinta, as janelas especulativas, a porta reticente e a ponta curiosa do cajueiro de cima do telhado. Ia. De repente, o travor do caju no peito, a porta sem respirar entupida de tinta, a ferrugem do que sentira a janelas fechadas ... e então a chave caiu-lhe das mãos frouxas.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
O tempo do amor imperfeito
Fazia
um tempo
de amor frio,
reticente,
de ação
inacabada.
Em sol,
ela chovia gente,
Em si,
ele possuía de nada.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Juntando peças
Ontem ao montar meu presépio, notei quebradas a mão de um rei mago, a cabeça do pastorzinho, a mão de José e a orelha do burrico. Como sou de ler nas entrelinhas, enquanto colava as peças comecei a elucubrar sobre cada uma das partes dissociadas e relacioná-las às possíveis fragmentações no meu ano.
A mão de um rei mago é de generosidade, presente, iluminação, pode ser que eu deva me doar mais, tenho dado pouco de mim. Posso estar de mãos apagadas.
A cabeça do pastorzinho é razão, saber do perdido e trazer para si, quem sabe eu precise reaver algo escapado às mãos, recuperar projetos, estudos ou relações pessoais perdidas.
A mão de José é obreira, mão da carpintaria, da arte do entalhe, de dar forma; quiçá eu tenha que trabalhar com mais afinco, retirar excessos e dar melhor acabamento ao que faço.
A orelha do burrico é simbologia de ignorância, do firmar posição, da visão unilateral. Compreendi que devo me abrir mais ao pensamento do outro e permitir influências do que vem de fora. Sim, talvez eu ande meio absoluta, mesmo. Não ao ponto de pensar que só precisava de um novo presépio, isso não. Mas ainda assim meio absoluta.
A cabeça do pastorzinho é razão, saber do perdido e trazer para si, quem sabe eu precise reaver algo escapado às mãos, recuperar projetos, estudos ou relações pessoais perdidas.
A mão de José é obreira, mão da carpintaria, da arte do entalhe, de dar forma; quiçá eu tenha que trabalhar com mais afinco, retirar excessos e dar melhor acabamento ao que faço.
A orelha do burrico é simbologia de ignorância, do firmar posição, da visão unilateral. Compreendi que devo me abrir mais ao pensamento do outro e permitir influências do que vem de fora. Sim, talvez eu ande meio absoluta, mesmo. Não ao ponto de pensar que só precisava de um novo presépio, isso não. Mas ainda assim meio absoluta.
domingo, 10 de dezembro de 2017
Da concessão de poderes
Quem brilha
as estrelas?
Eu, tu,
nosotros,
ellas?
Em vez
de brigar
para acendê-las,
Por que não
brilhar
para morrê-las?
sábado, 9 de dezembro de 2017
Desdobramentos
Que
cada conta
_ ave-maria _
do terço
desse rosário
que me resta,
me receba.
Que
cada salva
do dia
_ origami que reponta _
me faça
encendida;
me faça
manter
a flama,
a poética chama
de dizer à vida:
aqui estou eu: pronta.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Canto de fim de ano
Que fazes,
pessoa,
tão madrugada
frente à descabida
escuridão
na tua vida?
O tempo escoa.
Mas foge a tempo,
isso é sombra de pilastra.
Liga o néon
dos livros,
acende letras,
cutuca
com vara curta
as estrelas de vidro
dos teus sonhos
para que tilintem;
canta,
assobia,
faz barulho.
Age, desperta
o sol cálido
dos teus sentidos
antes que
um chão de espinhos
forre a passagem.
Antes, pessoa,
que a descrença
_ luzinha tíbia _
que mora
detrás dos montes,
se achegue dissimulada,
e com quem
quer nada, nada,
ocupa o pau oco
onde tuas vontades
se encorujam
e te morre viva,
verdolenga, ainda.
domingo, 3 de dezembro de 2017
A paciente "bluish green"
Almada. Era almada quando fazia do corpo um poço verdejante de lodos luzentes. 'Exotic' miolo de uma agave. Glutinoso corpo, viscoso olhar. Imantava os rostos apagados das folhas da vida. Faiscava roupas brilhantes. Partes. Desprendia-se acesa de um verde-azulado, coisa de folha planando no ar. Pedaços. Trazia em si a pétala sedificada da papoula vermelha, duelo diário com o fio escuro da navalha. Talhos. Habitavam-na o universo afiado, a dor aguda, o sentido agudo das dracenas. Cicatrizes. Aqui, uns olhos presos seguram o teto. Ranhuras. Ali, a magia cerúlea do mar debruçada à borda dos olhos, o forro verde dólar sobre a mesa, naipe ouros, naipe copas. E no mundo casino de todo mapa, olhos salgados sobre a moral. Recortes.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Rua de gente pequena
Num fio
de galho
o fiu-fiu
de um
passarinho,
na rua
um fio
de gente
olha e ri:
cidade grande
não tem
fios
que ligam
postes,
os postes
vivem
cada um por si.
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Caminho de borboleta
Quando
minha poesia
ia embora
de mim comigo,
assim solta,
trejeita,
pagã,
buscava
a rua turva
estreita
ou a rua larga
luzidia;
nunca
bem soube
pela qual
mais tinha encanto,
sei que escorregava ruas.
Hoje
quando
minha poesia
se vai
já não sigo
em seu umbigo;
sei lá
aonde anda mais,
ou se anda,
ou se voa,
ou se ais.
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
domingo, 19 de novembro de 2017
Os nós do fim da linha
Ele velhinho, míope de tanto ver o mundo, abeirou-se dela, segurou-a pelos braços e afundou os olhos naquele rosto magro, branco e cheio de linhas, como a dizer: "Clara, me deixe ler você de novo para ver se eu entendo." E ele num encanto dissolveu-se ali. Então caminhou olhos pequenos sobre face dela, feito anda uma joaninha sobre o titânico e labiríntico limbo da folha da videira, assim imprecisa, mas sem interromper o rito e atabalhoada para chegar logo à margem.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Volver
O que me traz de volta é a bravura
No esfarrapar do vestido,
dentada de nímios quilos,
reticente dor aguada.
O que me traz de volta é o cansaço
Mornos poços, postas águas,
arranhões, ruas escuras.
Pés em pausa. Paradas. Portos. Pontos.
O que me traz de volta é a cicatriz
Dos joelhos na calçada,
da vastidão do meu nada,
da vida espalmada de atriz.
O que me traz de volta é o sentido
Senti do que tem o vívido,
sentido que tem o vivido,
sentir (sem ti) do que tenho sentido.
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Sintoma
Adaga
agulha
lança
setas
Culpa
agonia
medo
angústia
pranto
desassossego
(pontas abjetas)
E tudo
quanto preciso
mora
no teu paraíso
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Por onde anda seu sorriso?
Imagine o caminho que seu sorriso faz para chegar aos olhos do outro. Às vezes ele sai tão em disparada que nem se pode saber que atalhos tomou e de onde partiu. Outras vezes ele chega tão vagarosamente, mas tão lento, que parece ter cruzado aquele seu deserto inteiro. É que o caminho a ser percorrido pelo seu sorriso depende da pressa dos olhos que o esperam aqui fora.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
O pesadelo de uma presença
Levina, impaciente, vinha do minimizado: barraco, barriga materna espinhosa, roupas miúdas, comida pouca, toco de lápis, família sem "pedigree". Vívian, calma, vinha de amplidões: casa grande, barriga materna almofadada, roupas longas, mesa farta, caixa de lápis 120 cores, família tricentenária. Duas grandes mulheres vítimas da pequenez masculina; o feminicídio.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Atrelações
Enquanto
os raios do sol
vazam
entre nuvens escuras,
eu entranço
minha luz
à tua sombra.
Entro-te.
Enlaço
teus escuros,
coo tua história,
te suavizo.
Teço-te penumbra.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Astenia
Ando
que te ando
tanto,
que me cansa
andar-te.
Tropeço-te.
Caio de joelhos,
me peço a Deus.
Levanto.
Ando
e me cansa
andares,
te despeço
adeus.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Da série: Poesia Ilustrada
e quem diria
que um amor
puro e verdadeiro
pudesse
ser achado,
um dia,
numa esquina qualquer?
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