terça-feira, 28 de maio de 2019

"Surpresas"


 
   Din-don...
 
   Abri
   e plaft!...
 
   meu coração
   saltitante
   esborrachou-se
   na soleira da porta.



sexta-feira, 24 de maio de 2019

"Quefazeres"



      e a vida
    sempre 
    e ainda
    na planta
    (dos pés) 



Findos infindos



   Um dia
   seus olhos fecundos
   me pintaram
   de azul,
   e eu era assim: mundo.
 
   Uma espécie
   de terra azul aguada
   onde você nascia;
 
   Seu sol, sal, terra,
   estrela-do-mar,
   estrela-guia;

   E eu que fui tão tudo,
   fui céu
   nos seus olhos azuis;

   E eu era assim,
   ave rara:
   um Saí-azul;
 
   Voei, voei,
   fui n'outros mundos.
   'Avis-rara' me fiz.
 
   Saí do azul, eu.
   Sou assim mesmo,
   eu sempre saio do tom.



sábado, 18 de maio de 2019

"Distimia"



    Tilintam tulipas,
    vibram vidros,
    tinem
    em meus ouvidos,
    os gritos infantis;
 
    Fito meninos,
    visitas,
    brindes à saúde
    e demais vítimas
    de minha freima.

    Inspiro... espirro!
 
    Cinjo-me à pilastra,
    imprimo
    um sorriso irônico,
    e replico inaudível
    à inquirições.
 
    Vida, vida, que foi que fiz?
    Inabordável, torço o nariz.
 

 

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Uma cortesia do tempo"

           

       Coisa mais boa, pessoa,

       a vida
       passando lenta, 

       pássaros
       passando lépidos, 

       e você
       passando ao largo...
             



quarta-feira, 15 de maio de 2019

Macau


Meu nome
cancionado pelo vento,

seus olhos
diluídos na distância,

nossa fala empedrada
nas letras,

um amor
furtivo na poesia:

tudo vai, tudo bem.



"Vasto sentir"

                               
   
      é que
      o coração
      tem mais ramos
      que o tronco
      imagina



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Eu, teu desassossego



       Eu te faço tropeçar
       pela casa:
       teus pés precisam
       saber a volta;

       Inda que eu troque
       os pés pelas mãos,

       eu fecho teus dedos
       na porta
       para tuas mãos
       se curvarem aos erros;

       Então caio
       em tentação:

       derrubo teus óculos
       no chão
       para que revejas
       o que nos edifica;

       Daí, dou-te o fel
       da minha fala,

       porque os teus ouvidos,
       ah, os teus ouvidos,
       eles precisam
       mais bem-querer
       a doçura do que eu te digo;
     
       Por fim,
       desalinho teus cabelos
       com o cuidado
       de desfazer o teu pensar.




quarta-feira, 8 de maio de 2019

"Sentires"


     Enquanto a terra
     dorme grãos de futuro,
     o céu guarda
     (numa gaveta bem grande)
     estrelas para a noite.
   
     Mas no guardar das estrelas,
     a velha gaveta faz um estrondo.
     E por acaso, a terra treme;
   
     O céu sente que a terra
     ficou aterrorizada
     com o fragor da gaveta;
   
     Então o céu
     lá de longe, muito longe,
     com sua benquerença celestial,
     acaricia a terra
     com uma chuva bem mansinha...




sábado, 27 de abril de 2019

O mundo 'dele'



     Queria o mundo,
     teve mundo e mais.

     Viveu ali,
     quase fora do desejo.
   
     Entre amores
     negociáveis e diversos,
   
     Entre preços
     e sem versos.
   
     Viveu ali,
     num tom acima,
   
     numa vida
     sem métrica nem rima.
   
     E livre, coitado,

     livre dos sonhos
     que só a poesia dá.
   
   



sexta-feira, 26 de abril de 2019

"Self-love"

 


    Seja dito 
    de passagem:
    ninguém "é".
    
    A valer, 
    amo quem "estou".
    
    É o caso de dizer,
    talvez,
    que eu me amo
    por nós três...!




"Tua luz"



   Nebulosas
   planetárias,
   halos solares,
   aurora borealis;

   Beleza alguma
   se iguala
   à chuva de estrelas
   da tua presença.



 
 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A viagem



   A leve e leda
   borboleta
   pousou
   no casulo
   onde fora reclusa,
   para se provar alada.




segunda-feira, 22 de abril de 2019

sábado, 20 de abril de 2019

Canção de alento



Anime-se,
meu bem,
deixe esse sono;

Lá no fim da rua,
em nosso pé de lua
é outono.

As folhas
enquanto caem,
pisam as gentes;

Mas mesmo
que nos diminua,
que nos mingue, não ligue.

Sigamos tontos,
juntos, como os frutos
caminham pelos troncos.

Venha ver
outras sementes
já bipartidas,

Os brotos, 
feito mãozinhas 
postas em prece,

rezam nós dois, 
sonham nós dois,
enquanto dormem vida.



Nós de outra cor


 
  Tem uns olhos 
  de quem perdeu
  parte na história
  (olhos de índio)
   
  Encara:
  pinta o cara
  para a guerra
  (cara de índio)
 
  Pulsa no peito
  dos rios, das matas,
  dos animais
  (coração de índio)
 
  Divide.
  Dá do de fora,
  Dá do que sente;

 Tem natureza índia:
 é brasileiro.
 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2019

"Dos perigos do fim de tudo"



    Bocas bebem
    um mar de sal
    de uns olhos madeirados
    e doutros, azuis arenosos.

    A força do grito
    violenta
    o cristalino da garganta,
 
    violenta
    o cristão dos corpos,
 
    violenta
    o cristal dos copos
 
    e dos cacos
    que arranham,
    que tilintam,
    que derramam.

    Navios singram,
    Nativos sangram.
 
    Em nós: nódoas.



 

sábado, 13 de abril de 2019

"Se vou"



 
   "Carrega bagagem em excesso",
    _  Alguém me diz, em reprimenda;

    Riposto que são meus pertences.
    E eu me pertenço tanto...
 
    Tanto que, quando vou,
    Vou plena. Vou por inteiro.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Sinuosidades"


     Água plácida,
     correnteza,
     queda d'água, não importa.
   
     O poeta será sempre
     pedra vírgula
     a pontuar curva de rio;

     Nos meandros,
     a pedra poeta para
     à espera de Fântaso,

     (e ele, manso, se apossa)
   
     e invade, e intensa, e alma
     os mistérios que moram
     depois da tortura de um rio.
 
 
   

 

domingo, 7 de abril de 2019

Quaresma e sugestibilidades


         
         E no supermercado, a mãe com a calculadora na mão não ouve o papo de seus pequenos, os dois por volta de quatro e seis anos de pura experiência.
        Seção de condimentos e especiarias. O cheiro do cominho, tomilho, pimenta calabresa, manjericão, colorau, gengibre, hortelã, salsa, orégano, tudo junto e misturado'. Açafrão, menino, canela, eu, cravo, noz-moscada, mãe, coentro, pimenta do reino e 'tutti quanti'. Eu me vi Cabral a caminho das Índias. E a gente lá, 'together and mixed', a descobrir brasis, a procurar temperos para nossas vidas.
       _ Mamãe, o que é isso nesses saquinhos? Diz o maiorzinho, camisa do Chelsea.
 A mãe na calculadora Samsung, só ouve preços.
      _ Mamãe... ô, mãe...! Abaixando a voz, desiste.
O menorzinho, 'style Neymar,' camisa do mesmo mar do Norte (do Paris Saint-Germain), responde com a propriedade de um 'gourmet': 
     _ Eu sei. Isso é peixe.
     _ Não é, isso é perfume.
O pequeno insiste:
     _ Isso é peixe... não conhece o cheiro?
O maior não quis dar o braço a torcer, mas viu que o pequenininho tinha ali qualquer tanto de razão e arrematou logo a conversa:
     _ É. É perfume de peixe, seu ignorante.
      E eu em pensamento: louro não, camomila não, alecrim não... achei! achei a erva-doce. E o Brasil é assim achado. E o Brasil é assim, um achado. E o Brasil é assim ou assado.




quinta-feira, 4 de abril de 2019

"Do que vem de lá"


                                             
    Dos deveras,
    dos deveres,
    dos devoras,
    
    dos 'déjà vu',
    dos défices,
    das demoras,  
    
    dos devires,
    dos devires e
    demais devires.          
    

 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

"Das levas"


                                          

      E que tanto amar
     foi esse
     que no instante de ir, 
     quase nem coube
     nos olhos da morte.




Em um jardim do mundo



         bodoques 
      bordunas
      "in stand by mode"
      
      botões
      batons
      a postos

      as folhas
      do livro da vida
      outonam
      
      na roseira
      a rosa vermelha
      abril em paz 

      



domingo, 31 de março de 2019

"Inexatidões"



  Aqui
  pelos meus becos,
  muros e paredes
  não me encastelam;

  Lá e cá,
  as tantas mulheres
  que me habitam
  andam imprecisas;
 
  Não se estancam.
  À vontade,
  transitam inexatas,
  sem dar lugar ao inflexível.




"Coisas da vida"



                         
                          

     "Na vida tudo tem seu preço..."
      sua pressa,
      seu peso,
      seu passo,
      sua pedra,
      sua prenda.




terça-feira, 26 de março de 2019

"Depois"


Quando tu ias,
meu tempo
se desorientava.

Noites
não dormiam
aflições,

Madrugadas
abriam bocas
quebrantadas,

Manhãs
acordavam
anuviadas,

E a tardinha
ia longe
para te ver
de perto.

Hoje
quando vais,
as noites
se deitam ninadas;

As madrugadas
ganham colo,
as manhãs
me chegam tintas,

E a tardinha
já nem precisa
se afastar
tanto de mim
para buscar-te.



quinta-feira, 21 de março de 2019

"We"


   Essa vida
  já me calou
  tanta gente,
  meu bem,
  Só não quer
  calar nós dois.





quarta-feira, 20 de março de 2019

"Anoxia"



     Suporta,
     se importa,
     se porta.
   
     Pobre mulher:
     sem janela
     nem porta.

   
   
   

terça-feira, 19 de março de 2019

"Romã"



  Amarelo rosado:
  é romã a maçã
  do teu rosto
  que seguro em Palma,
  na palma
  da minha conquista.

  E passo
  horas assim,
  a te laurear
  cascas,
  sementes,
  lascas
  e a fruta vermelha,
  chapiscada
  de tua luta interna.

  É trono,
  coroa real
  de rubis;
  Roma
  é teu lugar
  em mim:
  palácios Flávio,
  Augustano,
  Quirinal,
  Domiciano,
  Tiberiano,
  Laterano.
  És-me epopeico.

  És romã.
  E na fruta,
  e em mim,
  e em Roma,
  Casa Dourada,
  adorada casa.






quinta-feira, 14 de março de 2019

Fim de flor



 Murcha, ela
 quis sossego.
 Cansou-se
 do ser flor;

 Se despencou
 do pé
 e saiu de cena
 como se a suspirar
 mussitasse:
 ... a-çu-ce-na...!




sexta-feira, 8 de março de 2019

Os peixes do feminino



Há um sono mulher,
peixes dormidos no feminino, 

Mas que de olhos arregalados,
nadam semimortos
por glaciares Antártida;

Açaimados, nadam 
pela política da América;

Abstrusos, nadam
pelas minas de pedras 
e pelo animal África;

Que de olhos aguados
nadam pela Ásia,

que nas artes
e na moda Europa,
nadam desolados;

E na Oceania,
e onde mais se acham,

fogem de arpões,
quebram fronteiras,
se indispõem com demarques;

E embora sonados,
Sempiternamente, nadam.
Nadam lá dentro do feminino.

E ainda que nunca acordem
onde em sonhos estiveram: nadam.





terça-feira, 5 de março de 2019

"Jogo de luz"


 Viver é espanto.

 Algumas vezes
 pássaro,
 outras vezes
 espantalho,
 noutras ainda,
 espantalho
 no espelho.

 Viver é espanto,
 meu amigo:

 é espantar-se
 com o outro,
 espantar o outro
 ou espantar-se consigo.




domingo, 3 de março de 2019

"Anfibologia"


     Uma, duas, 
     três... e tantas 
     outras mais...!
     
     Conte-me, 
     ex-amor.
     Conta comigo, rapaz. 





sexta-feira, 1 de março de 2019

Espontaneidades

                                       

   Viu a roseira esmaecida,
   um céu sem róseos
   e ao seu lado,
   uns olhos despetalados.
  
   Sem pensar duas vezes,
   
   escondeu o dia apoucado
   num dos bolsos 
   e do outro, 
   sacou uma noite estreladia.



     

Fantasias


 E neste
 Carnaval, 
 eu de lua, 
 você de só.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Subtrações


   Tinha olhos
   furta-cores.
   Ora roubavam 
   meu vinho, 
   ora me roubavam 
   a brancura d'alma.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O silêncio das minhas mãos



 Juntei fatos, 
 fotos, falas,
 suspiros,saudades,
 ... e enfim,
 tantas palavras reuni,

 Mas não tenho dedos
 que te escrevam:
 todos eles 
 ficam mudos, quando 
 é pra falar de ti.




sábado, 16 de fevereiro de 2019

Olhos vazios



A mulher
abre a janela,
não sente a rua.

Um passarinho
faz piruetas
no fio de ouro
daquele pescoço
quase sem aorta,

O moleque
empina
a cidade na pipa,
e faz cócegas
naqueles
olhos sem graça

E o dia
faz renda
no horizonte
e fura
a tela surreal
de seu tempo;

Mas enredada
no linde
de seu ontem,
nem os olhos
da mulher
atravessam a janela.




Naturaleza da dor



Na boca
vermelho urucum,
a brasa,
a flor da malagueta.

Nos olhos,
a perfídia
cinza azulada
das folhas da embaúba.

No peito
marrom jenipapo,
um gravatá
de abrolhos.

Pés
embaiadores,
passo ida,
passo volta,
num negrume jatobá.

Ao fim,
tinha boca, olhos,
peito e pés urtiga.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Aposta de corrida



  E agora, a postos, 
  meu bem, 
  vamos ver
  quem de nós dois
  chega primeiro
  ao coração
  de outras pessoas? 




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Hedonê



A vida pedia mais.
Casas arregalavam portas, 
E um céu, suado, 
deitava suas estrelas no mar.  

No meu sonho,
ele abria as asas
e me voava.
Era um anjo de mim.





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

"Quando vem a distância"



         Foi ficando longe, desprendia-se de quem ela amava e de quem odiava, se afastava do doce da fruta e das florzinhas de jardim. De modo igual, soltou o vivido e a esperança do vindoiro.
         A cada dia se distava mais dos torrões de terra, do caule das árvores, das folhas, das rochas, do seu formigueiro. Apartou. Foi-se embora da formiga que era.  




sábado, 9 de fevereiro de 2019

Traços e impressões


Dia de mudices:
moleques amuados,
cravinas caladas,
pássaros passados,
cidade silente;

Parece que o dia,
em seu pejo,
abriu um sumidouro
na corrente água
do desejo das gentes.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Pau D'Arco & Brumadinho


"Acostuma-te à lama que te espera",
ele diz.
Acostume-se, meu amigo, eu digo.

Acostume-se.

E se não à lama dos Anjos:
de viver entre feras, e por erro,
o inevitável desejar-se fera;

Àquela lama dos Deuses:
de ser tão e tanto de carne e osso,
de até morrer pelos deuses do ferro.




sábado, 2 de fevereiro de 2019

Os tempos verbais nas árvores




     Todo dia 
  a vida alada
  nos cala
  passados
  com presentes,
  
  Todo dia 
  a vida assobia
  em futuros
  frutos furta-cores
  travestidos
  de presentes,

  Todo dia 
  a vida
  em passarada
  nos (en)canta
  presentes. 




   

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Vigília

 
    Levanto-me tonta,
    ensonada
    de um amor insone
 
    que não se deita,
    que não dorme,
    que não some.