domingo, 24 de março de 2013

Retrato

 
   
E por falar em reflexos e em retrato, é em Cecília Meireles que me espelho quando me empresto ao poema ou dou de mim, à minha poesia.
 
 
 
 
 
 
 Retrato
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
 
Cecília Meireles
 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

Luz das estrelas



 
         De quem é a luz que pousou em meu corpo? Acordei iluminada. Ouvi quando passos apressados andaram em volta de minha cama. Tive a sensação boa de ver tuas costas largas. Antes, porém, senti um mansinho de mão tocando-me os cabelos suados. Meu corpo foi se inclinando ressabiado e cauteloso para perceber-te completo, mas não te vi. É que não conheço bem quem sorrateiramente ronda meus sonhos e sono, desarranja meus lençóis, procura-me, advinha-me e presumidamente me desacoberta em minha cama, me acha e eu me perco. Acordei acesa. Eu tinha um brilho, um laser atravessando de ponta a ponta meu corpo. Quis saber quem da escuridão de meu corpo apagado, teria pena. Quem a mim quereria ver - se nem eu quis - ver-me luzidia?
         Ah, deixa-me na escuridão a que me proponho. Deixa-me, pessoa. Caminha teu caminho e não ronda meu quarto escuro. Anda mais. Espreita-me de jeito que não me irradie tua luz. De longe, bem longe. Minha solidão é avessa a se ver assim, muito clara. Minha fragilidade é envergonhada. Meu coração é poço enlameado de mágoa. Meu orgulho tão artista, coitado, fugiu correndo assustado. Minha ingratidão ficou desapontada. Eu peço, tira teus olhos luzentes de meu corpo. Tira tuas mãos brilhantes da minha cabeça. Esqueça. Como hás de me apagar agora, se tudo é lume quando te achegas? Toda fogueada, ardo em tua cintilação. Por quem te tomas, que faz em minha floresta escura uma clareira apontando meus erros aos Deuses? Por que vens enquanto durmo te acovardando diante de meu negrume e me entorpeces de clarões... E me confundes a vista, e arranhas o meu espelho com teus raios doridos. 
         Sinto como se todas as estrelas entrassem de uma vez em meu quarto preto, quando surges. Quem quer luz? Quem te disse que dela preciso? O teu claro prescinde meu escuro, ou depende dele? A que vens? Chegas na calada e foges quando dou por mim esplêndida. Não assumes a intenção de teu fulgor, de tua atitude de aclarar. És uma estrela invasora ou uma constelação delas assumindo forma humana ou ainda, és forma humana só ao meu lado. És grande e brilhante porque sou uma tua inversão, um reflexo teu versão mulher. Brilha tu, acolá; estrela imensa. Seja-a de mais longe, por favor. Afasta-te. Ou de mim depende tua evolução para deixar poeira estelar? O meu corpo te evolui, meus sentimentos te avolumam, meu afeto te soma e minha verdade escura te desorienta, te reverte aos deveres de novos começos. Quer minha sombra para que não te torres no rútilo de tuas vaidades. Sim, precisas de meu corpo escuro para dormir tua luz intensa quando a noite te vem espavorir. Sinto; és meu bem maior, mais rico, mais preciso, e me luz, e me incendeias e me incomodas. Como me incomodas!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Me beija-flor





O beija-flor vive de floreios em sua realidade
Eu vivo de poetar em floradas racionais o que sinto

Tu vives de acordar a conveniência de teu sonho em botão
Deliramos em conjunto
Alucinamos coletivo - o beija-flor, tu e eu

Numa vida enfadonha e fantasiosa
estouramos bolhas de sabão coloridas em nossa fronha

Teço teias vívidas com fios de tuas veias
Enredo-me no azul do teu sangue lento meu domínio

Na papoula, o beija-flor zonzo sonolento

No emaranhado de nossa presença
No fim de meu túnel à luz da tua verdade

O pesadelo da pertença   

Possuo-te, mas não sou tua

És meu, e não me pertences...

Dia virá quando o beija-flor, tu e eu, exaustos
Sem o torpor que a papoula deu

Sem a tendência do acorrentado Prometeu
Viveremos de vida, numa grande bolha colorida

Sem hora dividida, sem tempo definido, sem sombra de ida
Com flores, méis, beijos, anéis e um beija-flor sóbrio

Longe dos véus, longe e num céu que nos ronda e quer





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Caleidoscópio

 
 
 

          Havia passado a chuva,  a trovoada, o temporal, mas o vento gelado ainda grudava na pele. Seus olhos vermelhos pareciam duas poças grandes d’água em um colinho de açucena. Desequilibravam e balançavam o homem, como a água da chuva faz com o copo dessa flor. Arrisquei uma tosse, não saiu. Olhei para o lado e me vi atrelada ao destino que acabava de se inventar pra mim. Estávamos no carro e tudo lá fora era molhado de tristeza, e eu pensava no quanto tudo ali dentro era seco da alegria que um dia sentimos juntos.

         Olhei o caminho longo que agora se formava da janela. Rumos estranhos, mal traçados. Todos os galhos das árvores lembravam sobras de trilhas que não tinham um começo visível e nem se podia ver seus fins porque as folhas impediam. Incerto futuro, pensei. Recorro sempre às chaves em minhas inseguranças, lembram-me saídas e chegadas. Segurei-as entre meus dedos tensos, com certa frouxidão. Precisava da certeza da ida e o barulho das chaves provocava  isso em mim. Aquele tinguelingue quando elas esbarram umas nas outras, arranham minhas horas. Sempre foi assim, percebo meu tempo nas chaves, pelo balanço delas vejo se ele está vencido ou se começa a ser contado.

         Dizer o que, quando as chaves já me diziam tudo e quando o momento roía-me os calcanhares? O meu ir, gritava dentro e só eu sabia o quanto gritava alto, quase que dava para se ouvir de fora. Olhar o longe era a arma contra ver do canto dos olhos doces, desaguar o tudo represado e ainda dificultar a descida da minha montanha. Ah, a montanha... Uma descida sonhada, bem-vinda, que pensava eu, seria uma disparada como um esqui deslizando na neve, um escorregador sem fim, uma bicicleta sem freios, um mundo sem atalhos, sem curvas. Meu coração moleque de rua iria descruzar os braços, destravar as pernas, pisar macio os pés sujos e correr esvoaçando com o vento os cabelos suados, rumo ao novo caminho. Ele queria experimentar a vida irresponsável de sair na correria, sem alma, sem calma, desarmado, desimpedido, descompassado, desatrelado, despedido, e todos os “des” mais existentes. Ir, ir e ir. Deixar para trás os idos, os tidos, os vividos, os investidos, os lidos e buscar os “rá” que se formariam a partir dali.  Abri os braços e a vida  foi me invandindo, me inflando  e se acomodando em mim. Pus uma venda nos meus olhos de enxergar o passado e abri uma fenda no futuro.  

           

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Volare







         Na loja de brinquedos a meninazinha indignada olha para a mãe e diz: _ Por que tenho que escolher entre esta cor e aquela, entre este ou aquele brinquedo? A mãe responde ainda sem saber por que o diz, sobre as vantagens de se poder escolher. A mãe tenta mostrar a eterna investida das escolhas na vida das pessoas e a inevitável assiduidade do escolher. “Isso é assim a vida toda”, diz a mãe, à filha. Nem explica tanto, mas deixa subentendido que escolher é bom.
        A menina cresce, mas não gosta quando surgem as alternativas. Quer voar para esquecê-las. Torna-se adolescente, se esbarra nas escolhas e enquanto pensa no bom de escolher, não escolhe a contento. Assim nunca se convence da escolha como coisa boa. Adulta escolhe viver como a mãe e vive escolhendo, por achar que escolher é necessário e bom. Segue entre o isto e o aquilo, todo tempo. A profissão, suas parcerias, seus partidos políticos, instrumentos musicais, os amigos, casas, músicas, flores, agulhas, chaves, cursos, maquiagens, livros, estilos e tudo o mais. A vida segue e a deixa cega de escolhas. Ela quer voar para esquecer...
        Acontece que quando se pensa entender a vida, ela nos rasteira. Adulta, a meninazinha entende que realmente, uma grande parte da vida é por ela escolhida. Mas há outra, uma parte mais rígida, imposta pelo social e disposta nas crenças, na cultura,  já embutida nas opções.
      No fim, inimaginável por ela é a quantidade de acontecimentos determinantes em sua vida e independentes de suas escolhas. E eles, sim, voam intocáveis e inatingíveis. Não são ou serão impostos, mas surgem, ou surgirão por encanto numa espécie de magia do caminhar. São diversos e adversos os nomes dados na intenção de se definir essa coisa que acontece e foge de nosso controle. Chamam de acaso, coincidência, providência divina, fatalidade, sorte, azar, dita, desdita, destino, sina, fado, futuro, e por aí vai. Ou, por aí se vai... nessa trilha afofada de folhas, escolhe-se onde pisar sem nunca descobrir o que há embaixo do passo.... Segue-se pelo caminho sem saber o compasso. Toma-se um rumo novo sem entender o motivo... Pode-se escolher o abraço, mas nunca se tem a alternativa de enxergar o coração que mora atrás dele...


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Pedra em movimento






Eu costumo falar pro meu sonho: Quieto aí! Quem manda em você sou eu! Porque ele fica brincando comigo, fazendo palhaçadas, passando por baixo da porta, escondendo embaixo da cama, dentro do meu guarda-roupa, no meio dos meus livros e tem hora que quer mesmo é ir embora. Cá, estou entregue. Estou pedra rolada montanha abaixo ou talvez segurada montanha acima - como a pedra de Sísifo, no meu sempre recomeço. Sei lá eu. Sei que quero viver, e enquanto eu morrer assim, quero esta vida.

domingo, 20 de janeiro de 2013





Divido com os leitores do blog, João Cabral de Melo Neto, este presente lindo...


                                    Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto


Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia
"Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

Saiba mais sobre o poeta e sua obra em "Biografias".

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Atravessia

                                                     

          Parecia um deserto. Era como se não houvesse vegetação, nem mesmo as rasteiras. Não fosse a sensação de ouvir água em movimento, encachoeirada, caindo por perto, sentiria o abandono do mundo. Acordei de um sonho intenso. Apunhalada, cortada e rôta. Os cortes, os furos, tudo me doía. Ali estirada, minhas roupas pingavam cansaço e dor, suor e sangue. O sol no céu me dizia meio-dia. A metade do dia ido, o meio do dia por ir. Olhei ao meu redor como cegueiam os perdidos. Senti a solidão dos deuses agigantados diante dos humanos.  Meu corpo guardava os tremores e os barulhos das últimas explosões, ainda. Olhava tão cegamente procurando e não conseguia encontrar o caminho tomado pelos olhos moles que acompanhavam os meus. Não entendia a separação do corpo que andou dentro de mim como uma sombra interna, ou meu segundo reflexo. Não me queria atenta ao silêncio da voz que nos últimos tempos havia sido minha audição favorita. O aveludado do pêssego ao meu ouvido havia emudecido. Mas os estrondos, aqueles estrondos da realidade, da vida que existe fora da poesia, tinham alcançado meu sonho.
          O real sangra o imaginário desde que o mundo é mundo. O real, ele vem desmanchando tudo, avalancha, derruba, invade, estraga. Quando num sonho, o seu mundo é acordado pela visão daquele violino de ouro da vida, aí não tem jeito.  A violino de ouro é dura arte. Ele não tem porque vir. É mouco, é mudo, não trine, é só valia. Ele não existe senão para retratar que a poesia finda ali, que o canto não prossegue e parou empedernido no brilho do ouro que o suporta. O violino dourado, ele não tem poros abertos como os da poesia. É tapado, é coberto pelo ouro, em cada possibilidade de expressar a lembrança de ser instrumento. O ouro que a tudo banha de luz e apaga. Que a tudo apaga de luz.
          O domínio, o abate do movimento da poesia pelo caos do real fica na memória. Fica porque não só te acorda de vez, e fixa. Além de fixar, ao que se vê, para melhor torturar fica espinhando em todos os lugares do corpo, recorrendo, lembrando que a dor existe para ser sentida.  O barulho infernal que a realidade faz quando nos chama, machuca os flancos de nosso universo como o big bang - o grande parto, machucou o universo dos universos.
          Levantei-me do chão, olhei a minha volta. Em minha letargia, fui divisando trilhas finíssimas, pouco demarcadas, e como prova de que estava me acostumando a rumar, me imaginei tendo de afundá-las com o peso de meu sofrer, carregando minha vida sem poesia, pesada de minhas desistências, circundada da realidade do ouro. Do ganho de minhas perdas.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Decalque





Minha vaga luz meu lume
Éter de uma noite azulada
de erva daninha revestida
Canaã por mim tida sem visitar
donde corre leite e escorre mel
Promessa bélica hiperbólica
Minha nau esgarrada perdida
Mola mestra que me gira
Espiral que me aspira ronda roda inspira
Minha profundeza do veio do rio
Velame de meus dissabores
Vela-me mais ainda, acoberta-me 
Oculta de mim tuas inconstâncias
Esconda-te das ensurdecedoras cigarras
a te distrair de minha poesia
Recria-te no meu cinema mudo absurdo
Encha tua personagem de vida e espanto
da carne dura e do canto ancho que não mais tenho
És cipó apenso às árvores
preso e seguro te embalam os ventos
Decalcado e impresso estás em caules
Meu delírio...
não te desprendes nem soltas
Eu instigo e tu não brotas
não irrompes da vida real
onde te guardo em meu poema




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O sonho de uma presença





           O melhor da vida é esta capacidade de achar esperança em tudo. Saber do valimento humano. Saber que um homem pode demonstrar toda sua escuridão, sua sequidão e seu deslustre, mas que há nele, lá atrás, no escondido... uma fração não contaminada que se possa resgatar, como no caso.

            Ele não teve pai nem mãe. Quer dizer, ter até teve, mas não os conheceu. A mãe era uma mulher que vivia na esquiva do compromisso, fugia sempre que se via envolvida emocionalmente com os homens. Não os queria entender, não os queria por perto. Morreu no parto de seu único filho. Fugiu que fugiu e ainda assim trouxe um deles ao mundo. Fugiu dele também, que acabou criado por uma amiga. Desde pequeno o sujeito teve a sanha por companheira.  Não se dava com outros garotos. Introverso, praticava toda forma de crueldade com animais. Era do avesso. Uma espécie de mar revolto, nada o detinha. Dentro de si habitavam todos os turbilhões ameaçadores e dragões usavam sua boca para emitir labaredas; razão pela qual foi expulso de casa ainda criança. A rua não desampara, nem quer saber o que tem na cabeça nem o que sai da boca do sujeito. Ela quer para si as sobras, os restos dos carros, dos copos, dos alimentos e das gentes. A rua quer os restos com os quais alimenta sua noite escura, fria e miserável. Mas ele próprio não se quer aos pedaços, se quer inteiro. Cuida de si naquele não lugar de cuidados, ora livrando da faca, ora se alimentando de outros bolsos e sempre se completando na droga. Inteligente, conhece rápido, os caminhos estreitos por onde transita inadequado. A vida ali não é para fracos, é um sobrevôo atrás do outro. Aderiu ao tráfico e facilmente prosperou no permitido de sua única escola. Empodeirou-se. Lambuzou-se e abusou de todo tipo de mandos e desmandos supostos no extra da lei.

            Um dia cochilava à tarde em sua varanda, quando ouviu gritos vindos de seus vigilantes. Uma mulher gritava sua necessidade em lhe falar. Ele a recebe e abandona o tráfico no mesmo instante, como tocado por um bastão encantado. Uma só conversa e ele estava ali, cordeiro e escravo como nunca, de uma mulher que se dizia sua mãe, com quem jamais havia se encontrado na vida. O simbiôntico surgido daí foi inexplicável. Ele se prostrou a todas as vontades dela. A violência e a conhecida crueldade demonstrada nos mandos do tráfico dão lugar a uma vida simples e pacata com essa senhora, regada a carinhos e desvelos. Era a calada da fúria de um rinoceronte, o domo de uma fera. A mãe numa doação de inteiro teor, o filho no completo recebimento. A figura materna despertada dos sonhos, dos contos nunca ouvidos ou conhecidos dele. Ela afaga o que não é dela, ele recebe o que não é dele e retribui. E se encharca do mais puro e doce sentimento de pertença e de senhorio. Ele se inebria do bom de mãe, roupas quentinhas, chás, colos, afagos, comidas cheirosas e quitandinhas, abraços calorosos do fogo de casa materna...e vive ali, neste para sempre reticente dele.  Nunca mais foi o mesmo, um sonho o modificou. O sonho o acordou para a esperança e a determinação de um dia em sua vida, ter tudo isso.

                

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

La vie


                         
                         Penso a vida assim: caminho do aberto!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Meu escorpião taciturno

       

       Um dia dois escorpiões se encontraram.  Apesar de serem de diferentes espécies, eram escorpiões.  A literatura especializada traz cerca de mil e quatrocentos tipos diferentes deles. De cara, os dois se viram e entenderam suas  primeiras desigualdades , mas se sentiram atraídos pelas suas semelhanças e claro, pelas suas diferenças sexuais de  macho e fêmea. Os escorpiões se perceberam muito parecidos e se impressionaram ao se sentirem. Tão marcante é a visão para os escorpiões, que possuem até seis  pares de olhos e não enxergam bem. Há quem diga que eles captam imagens num tom azul-esverdeado e com seus corpos captem luz invisível aos olhos, de jeito a enxergarem com o corpo todo. Foi nessa fixação de olhos meio cegos, de sentirem-se vistos despidos um pelo outro, de se abarcarem tanto, que surgiu dali uma nova cor e uma nova forma de olhar de escorpiões. Uma única, para os dois. As diferenças não existiam mais. Os dois seguiam se confluindo e cada vez mais se avolumando e se condensando, como quando se misturam dois grandes rios.   
        Dentre os mistérios do escorpião, há o que trata de sua fluorescência. Escorpiões brilham quando a luz incide sobre eles. Ali, bastou o olhar de um no outro e se fizeram iluminados. Escorpiões se envaidecem de suas plasticidades, apesar de terem um aspecto rijo, sem maleabilidade e o corpo fragmentado... A olhar assim, cada escorpião parece feito de um mosaico, parece montado aos pouquinhos, o que dá ao escorpião um certo ar de completude. De que não lhes faltam peças. Talvez por isso, os escorpiões se empoderem, como se se bastassem. 
       Os dois escorpiões que se encontraram são como poetas, são "sentidores". Escorpiões não precisam de festa. Eles são a própria festa. Sensíveis, seu acasalamento é doce e requintado.  Apesar de emanarem sexualidade, se pode ver a infinita paciência em sua conquista marcada pelo ritual da dança chamada "Promenade a deux"  (passeio a dois), onde não têm pressa. Algumas dessas danças duram de quinze a vinte minutos, como há também espécies que ficam dançando até por dez horas seguidas, como é o caso destes dois escorpiões aqui. Que dançaram e dançaram... danças singulares e inesquecíveis. Nesta espécie de  escorpião, o macho não possui um orgão transmissor de esperma, ele então delicadamente limpa o chão, num cuidado com a parceira, depositando ali o espermatóforo, a estrutura que contém seus espermatozóides, para que ela sensualmente na dança, arrastada por ele, passe o ventre e seu orgão receptor no espermatóforo, para receber a doação de parte do que é o seu parceiro. Assim seguiam dançando a vida.
        Tudo lindo, tudo fluindo. Mas a essência do escorpião é inegável, o que o deixa mais misterioso e intrigante. A sua peçonha o espanta da felicidade. Aquilo que brilhava tanto nos olhos dela, aquilo que ele via fogueando em sua fêmea, a felicidade dela estampada, lembrou o fogo que o irrita, que o fadiga.  A luz que ele sente forte e enxerga com profundidade o frustra e amedronta, clareia-o imensamente e foge ao seu poderoso controle. Ele se vê encurralado, acuado, suprido do amor do fogo emanado dela, de seu olhar, daquele calor aterrorizante a ele... e ele se vai. Ele morre ensimesmado. Ela o deixa ir.



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esta menina essa mulher...



     

      Nunca leu Bakunin. Graças a Deus. Bakunin iria se apavorar com ela. Não gosta da crueza de Nietzsche. Augusto dos Anjos, me livre! Acha Guimarães Rosa um vesgo literata, olha o certo e o escreve errado. Quintana é simples demais. Leminski não aprofunda. Adora Hemingway. Só ouve música clássica. O papo dela é "harmonia". Casal só se for hetero e a casa tem que ser linda e perfumada. O inferno é quente mesmo... e o diabo é como se pinta. Ela é contra até quando no inferno, a gente abraçar o diabo. É mole? Esta menina...
      Para ela, o destino já vem traçado, o marido já vem escolhido. A morte vem no dia certinho. Não se antecipa nem se adia a morte. Tipo: "Casamento e mortalha no céu se talha."  A meninazinha é organizada. Quer tudo "como dantes no quartel de Abrantes, é toda composta por essas tirinhas populares. Segue costumes. Ninguém a engana,  porque "não compra gato por lebres". É chata. Até as "roupitchas" dela, vestidos, saias e blusas tem babadinhos e florezinhas miudinhas mamãe dolores. "Romantiquíssima", entenda-se aqui; romântica e antiga. Só anda com seus pares para não ser uma maçã também podre. Pode?
      Esse tipo de livro não lê. Aquele tipo de viagem nunca fez. Calma...só a Paris, New York, Itália e London. Religião só é a tal. Deus é só um. Todo santo só faz o bem. Nunca foi a um terreiro. Infeliz é só quem tem "contas a acertar", do tipo: "Deve a Deus paga ao Diabo". Até remédio é droga!
       Nunca pechincha, nem vai à feiras. Dá gorjeta com forma de ajudar as pessoas. Acha o rock não ruim, mas coisa do cão. Poesia é com Bilac. Piano só remete à Mozart. Nunca blefa no jogo nem na real, não faz careta para não entortar a cara. Não dá a cara à tapas. Não enxerga nos óculos escuros, lá atrás. Usa "modelitchos combinandinhos", sapatilhas de laçarotes, "strass" na sandália. A mulher é estranha. Sonha ir a Bariloche...
       Ela é do tipo que; fugiu do prumo...é "esquisito". Ganhou um grama, engordou. Só sonha organizado, a pobre. O sonho tem começo, meio e fim. Nem sonha à noite, faz é projetos. Quer marido engravatado como forma indireta de sufocar-lhe a garganta. E seu salto é quinze, agulha. Odeia motivos afros em roupas e acessórios, e decote; só vê como vulgar. Palavrão só pra homem e no lugar "apropriado". Só pensa em sexo, ao deitar. Só sexo de duplinha, ou seja, acompanhado de amor. Toda certinha. Não toma café puro, sem açúcar. Só compra quando pode, não estoura cartões.
       "Não fala com pobre, não dá mão a preto e não carrega embrulho"...ela é assim. Caminhos para ela, só levam a Roma e nunca a rumo. Na infância, nunca matou um passarinho porque é coisa de moleque. Não transgride. Nunca brincou com a resina que brota das árvores, nunca sentiu a dor de pisar um caco de vidro porque não andou descalça. Desgraça é palavrão e quando mente, a coitada reza até. Faz unha toda semana. Judiação! Nunca dormiu sem passar creme. Não toma café depois das seis da tarde. Vai à praia para se bronzear. Tudo nela, perfeitinho. Ela é mesmo muito estranha.  Nunca tomou vinho do porto sentada no meio-fio, na madrugada. Nunca tomou um porre de pingão. Passa no boteco e vira a cara. Caminha devagarinho e um passo de cada vez. Atemporal ela. Não canta pneu... Liga o carro como aprendeu: Liga a ignição, põe primeira e vai soltando a embreagem e apertando o acelerador len-ta-men-te. Eu, heim! Vai ser obediente lá longe! Ela tem relógios pequenos e delicadinhos. Olha a hora a todo segundo, porque "tem hora para tudo". Não tem uma hora que tudo para. Só deseja o bem às pessoas e só pensa em todo mundo com amor no coração. Anacrônica, ela. Dorme cedo e nunca sentiu a cruviana... esta delícia!
      Esta menina ou essa mulher... não pode ser boa. Deus não pode gostar de um negócio desses de jeito nenhum! 
        

sábado, 27 de outubro de 2012

Que me valham os vaga-lumes



         “Luz, quero luz!", palavras de Goethe, em suas últimas horas. Eu as rememoro. Estou agoniada aqui dentro, estou toda emaranhada nesses galhos das árvores, arranhada pelas folhas ásperas. Ninguém nunca esteve aqui antes, penso. As árvores são muito juntas, e assim coladas umas às outras, não há espaços para passagem, há lugares onde só consigo passar retirando com as mãos as folhas dos meus olhos, para não serem machucados. Estou arrepiada de susto e tenho o suor da temeridade. O escuro é absoluto. Um ou outro pirilampo faz risco no longe de mim. Medo não, pavor. Embrenho-me entre plantas desconhecidas, ramos, árvores altas, molhadas e cascudas. Há espinhos. Tropeço em raízes enormes, deslizantes da umidade, e sinto frio. Não caio porque galhos amparam-me e ao mesmo tempo, rabiscam meu rosto de cortes. Um corte na maçã rosto dói, e me parece mais profundo. Dos meus braços, faço verdadeiras foices. Quebro o que posso a minha frente, mesmo dificultada pela moleza dos talos, quando molhados.

          Meus pés arrastam folhas grandes, pequenas, e toda espécie de restos do meu caminhar. Ouço acolá o barulho de uma água que cai em cachoeira. Não sigo nada. Queria me quedar quicando em cachoeiras, na plasticidade que a água dá aos corpos mortos. Não morri, mas estou no inferno, queimo-me nesse gelo florestal. Abro meus olhos no meu escuro, como se não os tivesse. Rasgo minhas mãos tão amadas por mim, e que me deram sempre as palavras certas, nessa selvageria dessa mata úmida, agora desvirginada.  Sofro tudo, sofro toda. Minha condição de impotência, minha pequenez diante de um ninho imenso de árvores, minha nudez nesse fracasso, meus cortes do rosto e dos braços, meus pés delicados doridos, meu corpo frágil quebrado, minhas pernas esmorecidas. Enrosco-me em cipós que me prendem. Mas sigo, não paro. Vou. O cheiro é doce, há o frescor do orvalho misturado ao cheiro do verdor das folhas, dos caules. Posso identificar às vezes o cheiro do eucalipto e do alecrim do campo, que alivia o estar aqui, ele vem como um acalento a esse dissabor. Há um contraste com essa severidade da mata e a delicadeza desses cheiros, serão propositais? Ando que ando e não chego, mas espero o lugar. Mesmo em frangalhos, mantenho o otimismo histérico de ver o lado bom do sofrer. Acredito numa cachoeira que ouço. Numa nuvem de pirilampos que há de surgir. A floresta é movimento, é ação todo tempo. É luta por sobrevivência. Bichos são devorados. São insetos pequenos e grandes que voam, são pássaros que se assustam nos ninhos e vem para cima dos visitantes, são folhas e frutos pequenos e grandes que caem das árvores todo o tempo, são árvores que caem de velhas, são bichos que rastejam e fazem barulhos, são monstros que surgem do interno, são árvores que nos abraçam à força. É toda espécie de treva. Que me valham os vaga-lumes! Que me acudam organismos que possam bioluminescer, e aclarar isto aqui. E vou tracejando um rumo sem tê-lo. É aqui nessa floresta meu encontro. É nesse breu, nesse enlamaçado breu, onde surgirei na leveza da borboleta. É enfurnada nessa minha floresta escura, neste malquisto lugar onde sempre temi encontrar-me. Agora percebo, não são os vagalumes a incidir luz em mim. São minhas luzes a incidir sobre meus dilemas, meus conflitos. Só aqui pude ver-me verme imundo e quero deixar de vez essa larva gigantesca e pesada. Um lugar onde deixo meus bichos peçonhentos que neste momento purgam a mim, meus monstros que me corroíam viva. Quero prendê-los todos no para sempre...amarrados nessa floresta negra onde agora estou. Vim deixá-los. Vim joio separar-me trigo.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Minha visão de seus olhos...




         Clarice Lispector, traz em sua poesia, algo que gosto de pensar como; ela diz assim: "Até onde posso vou deixando o melhor de mim...se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração." Gosto disso, imagino todas as pessoas trazendo os seus melhores, nas mãos. Um "melhor" a ser visto, é claro, inundado de emoção. Desenfumaçado da inveja, desempoeirado da rigidez do pensamento, limpo da fuligem do preconceito, livre dos elos que formam as correntes do enxergar comum. É bom ver com olhos purificados assim. É bom olhar não só quem registra, ou quem escreve como vi, mas quem está ao nosso lado como sendo, sempre, um verdadeiro e gigantesco  poema. Sim, toda pessoa tem sua rima, sua métrica, sua versificação, sua concretude de poema, escondido atrás ali, da poesia que o forma. Os literatas fazem essa distinção: o poema é o concreto, o estrutural; e poesia, é parte subjetiva, é a inspiração do poeta. Cabe a nós desvelar esse sujeito, essa pessoa poema, descortinar esse espetáculo que é o outro.
          Enxerguemos com olho de Hórus. Segundo a lenda, Hórus tinha a cabeça de um falcão e os olhos representavam o sol e a lua. O olho direito simbolizava a informação concreta, com controle do hemisfério esquerdo do cérebro e voltado para as letras, os números, as palavras, representando o modo masculino de ver. Por outro lado, tem-se o olho esquerdo representando a informação abstrata, o feminino, os sentimentos, a intuição e uma visão espiritual, por assim dizer; sendo controlado pelo hemisfério direito do cérebro.
        Aqui, um verso meu, que gosto, parte desse olhar...talvez um pouco mais recatado e ressabiado, que devesse ser. Que seja aí, pelo menos um bom exemplo "a não ser seguido", quando se refere a investimentos humanos.
Esses olhos pretos, nacos de carvão
Nunca hei de atravessá-los...
Não ousei adentrar essa escuridão

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O alimento: Sofrer


     



        Lourenço tem cinco anos e meio. Ele e eu ficamos mais ou menos duas horas juntos. Num primeiro momento ficou meio arredio, assustado, mas em pouco tempo estava brincando de bola perto de mim, esperando pela mãe.  Não se desligou da sala onde estava a mãe, ou do que havia ocorrido (?)... Mesmo sem dizer nada, deixava claro que queria estar com ela. Olhava ao longe na direção da sala. Eu dizia que a mãe viria logo, e que ela precisava conversar um pouco mais com a tia Mara, a psicóloga que a estava atendendo. Que conversando, ela se acalmaria.  Mara o havia retirado da sala e dito a ele que a mãe estava nervosa e precisava conversar um pouco mais. Foi então que ele me disse, assim a seco:
      _ Minha mãe gritou pra Alice bem alto assim: Pega a faca prá mim, que eu vou matar “ele”, e ela estava “era” brava.
      _ “Ele” quem?
      _O namorado da Rita, minha outra irmã.
      _ Por que isso?
      _ Sabia que “ele” bateu o carro? Minha irmã estava com ele. Estragou tudo. Acabou com o carro.
      _ Humm...Machucou?

       Calou-se. Estávamos num lugar bonito, gramado. Ao lado um jardim enorme, com um pequeno parque e alguns coloridos brinquedos infantis. Ele ficou jogando bola, meio sem querer. Propus uma brincadeira: Brincar de objetivo. Seu objetivo era jogar dez vezes a bola na cesta de basquete. Fez a primeira, com dificuldade. Acertou uma e fizemos a festa... mais outras cestas e outras comemorações. Estava esquecido, entretido ali com a brincadeira. Do nada, parou. Desanimou-se. Perguntei se queria brincar de outra coisa e propus desenhar. Ele não desenha ainda. Ficou rabiscando e não saiu nada que ele queria. Pedi para desenhar a mãe enquanto esperava por ela.  Ele disse que iria fazer duas mães e dois pais.
        _ Por que dois?
        _ Porque é bom, ué. Muitos.

       Não conseguiu desenhar nada e desistiu. Quis que eu desenhasse para ele, a família. Falou deles. O pai usa calça jeans, mas não gosta dele (Lourenço). Quis saber por que ele pensava assim. Ele disse que o Renato falou. E que o Renato, era um amigo do pai dele. Ao que eu ponderei:
        _ Ele brincou com você. Amigos dos pais da gente falam coisas tolas, às vezes.  Ele devia estar brincando.
      Ele disse que não, que esse amigo do pai não mente, nem brinca; que fala sério. Que o pai não gosta dele mesmo.  
      _E seu pai? O que diz disso?
     _ Nada. Ele não é amigo do meu pai. É da minha mãe que ele é amigo.

Pediu-me: 
      _Desenha meu pai e minha mãe... Minha mãe de saia, de colares e brincos, meu pai de calça jeans e cinto. Minhas irmãs todas de saia e de salto alto. A Carmem, a Alice e a Rita. ”Tudo de saia”. Eu e meu pai de “calça de sair”.
Desenhei o pai, como ele falou. A mãe; ele pediu para desenhar a barriga maior, que ela tinha um bebê na barriga. A mãe perto do pai, do lado. Depois a irmã maior... a escadinha. Ele falou. A outra, depois a outra e finalmente ele, com a calça de sair. Ele estava completamente envolvido. Disse que o desenho estava lindo e que iria levar com ele. Pra ficar lá, bem guardadinho.
        O tempo foi passando e ele queria ir até a sala, onde estava a mãe. Chegou uma mulher perto de nós dois, para pegar a filha que estava ao nosso lado. Eu quis saber se a terapia de grupo havia terminado, e ela disse que sim. Ele ouviu e saiu em disparada, chorando e gritando a mãe. Eu saí atrás e pedi calma. Ele só se acalmou quando viu a mãe, na sala.
       Fomos para uma saleta ao lado e ele olhava os desenhos... um cavalo que tinha pedido, e a família. Olhava para mim todo o tempo. Nos olhos. Falou que não está na creche, que havia saído, mas que vai entrar de novo. Quer aprender a desenhar. Nem eu nem ele percebemos que a mãe havia chegado, por trás. Ela disse calmamente:
      _ Vamos Lourenço.
      Ele ficou olhando os desenhos, pensativo.  Fingindo não ouvir. Calado.
       _ Vamos...preciso ir.
      Ele ali caladinho e a mãe parada, insistiu:
       _ Agradeça a tia e vamos. Dá um beijo nela.
      
       Ele olhou em meu rosto. Veio para mim, mas parou no meio do caminho... Abriu os braços e me abraçou muito forte. Com força. Uma força exagerada. Fora da capacidade de seus bracinhos finos de cinco anos desnutridos.  Ficou quietinho, só dando o abraço. Muito tempo. Parecia que ele nem queria mais ir embora. Abandonou-se no abraço. Fiquei esperando ele se distanciar de mim, mas ele ficava ali, agarradinho. Esperei até ele terminar o abraço dele...Da mãe, para a mãe, ou na mãe dele... supus.
      Ele saiu. Fui saber a história de Lourenço. A mãe teve depressão pós-parto quando ele nasceu, tentou suicídio três vezes e tentou afogá-lo num rio, há poucos meses atrás. A família que ele fala, não existe. Não tem pai, nem irmãs. A família organizada como no desenho, é só uma gravura que traz em sua memória. É seu sonho. Sua mãe estava sendo atendida em um consultório psicológico da rede pública, em razão de uma neurose e havia acabado de ter um surto, uma crise com muito sofrimento que ele havia presenciado.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Minha porta de entrada para o sujeito único



 

       No dia que saí da casa do meu pai, era um dia assim noturno. Era estranho olhar o mundo a partir de outra casa, que não fosse a que me guardara durante toda minha vida. A que me protegera de tanta doença, de tanta tempestade e das minhas próprias intempestividades. Aquela que me segurou dos tropeços e dos trancos que a vida sempre me deu. Foi parede nos meus cambaleios. Sim, veria a vida de um outro “a partir”. Na bagagem tanta coisa: honestidade, desconfiança com gente muito boa, pé atrás com gente esperta demais, integridade. Aliava-se a isso a quantidade de livros dentro da cabeça, nas mãos, as marcas da casa da infância, a sensibilidade para aprender, os desapontamentos da adolescência e a imaturidade e ansiedade do adulto jovem. Entendia essa saída como um romper com o meu estrutural. Formar-me daí pra frente. O mundo é que daria os temperos de que eu precisava. 

       E se a vida me desse limões? O gosto das laranjas doces de minha casa se dissiparia. O mundo transforma gente, já dizia meu pai. Quando o malfazejo do mundo comparece, a bondade da pessoa pode até sumir de vez. Será? As coisas que passavam na minha cabeça faziam um barulho tão grande, tão repetitivo. E se eu não der certo? Se na moldagem que o mundo me der, ele me entortar ou me arrancar partes? A cada pergunta que me passava eu emendava: Como vou me explicar para quem deixei? Culpo o mundo, o ambiente. Culpo a fraqueza, a desobediência ao aprendizado. Sei lá, culpo... Pensava.

       E o mundo com essa redondice dele, ensina demais. E vai e volta. E você passa por gente que nunca quereria encontrar. E você encontra gente que jamais quereria deixar. O mundo disciplina. Dá a cortesia, dá a humildade quando necessária. Dá o orgulho, desnecessário. A minha falta de jeito na lida com as gentes que encontrava, era tanta. Não era assim, uma pessoa “jeitosa” de se mexer. Era “rusguento”, tinha uma espécie de capuz que eu dispunha dele quando via que precisava. Encobria e me descobria quando sentia mais à vontade.

       E eu fui por esse mundo. Um mundo que deu a faculdade, que me deu novas caras pra ver, novas máscaras para usar, novas casas pra morar, outras formas de pensar. Novos papéis para assumir. Papéis que eu sem pestanejar, assumi bem. Investi pesado em cada um deles. Fui pai sem necessariamente, repetir o meu. Fui “até” mãe sem me deixar influenciar demais pela minha. Fui filho único de quatro irmãos, de tão ímpar que me tornei. Fui me formando com cada pedacinho de gente que eu encontrava. Uns bons, outros maus. Aproveitei aqui e ali o bem de um e de outro. Infelizmente, o mal de um ou de outro impregnava em mim, com certeza. Mas eu nem via. Copiar mesmo, não copiei ninguém. Sou genuíno por assim dizer. Original. Nesse entrar e sair de gente dentro de mim (e ainda hoje isso acontece) foi-se fortalecendo um tipo, que eu gostava e me vangloriava dele. Só que de tanto elogiar esse sujeito que nasceu em mim, fui me tornando egoísta. Fui cuidando demais de mim e fui deixando o mundo prá lá, fui afundando nesse cara, como Narciso na beira do rio a olhar-se refletido n’água. Era igualzinho. Quanto mais reconhecia as diferenças entre mim e outras pessoas, mais gostava do que eu via em mim. Fiquei assim, uma pessoa comprometida com as verdades que criara. E aí eu coloquei mulher para me endeusar, filhos pra me agradar. Não sei se por medo de me perder ou para me defender, fiz a minha volta, espécies de pessoas espelho que me repetiam, de certa forma. Descaracterizei gente, até sem querer. O tempo passava e eu fui me envolvendo comigo. Alteridade...desconheço. Encerrei-me em mim.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma garrafa ao mar


                                                

        Pessoa, escrevo agora como se eu estivesse colocando um papel escrito  dentro de uma garrafa, arrolhasse e fosse jogar ao mar. Na verdade já está lançado ao mar esse texto, a partir de agora. Lançado a um mar de palavras que dão sentido ao mundo, que adquirem significados diversos; que revolvem, revoltam, acalmam, incitam, mas que não permanecem cruas, nem puras, como saíram de mim.
       Escrevo assim tão circunspecta e segura de assim poder fazê-lo, por acreditar que você pode transformar o que escrevo, mudar os sentidos do que digo, se o quiser; mas o que escrevi permanece comigo.  O que quero dizer está sendo levado a você, está transportado via esta garrafa aqui, mar afora. Foi exportado de alguma maneira e sei que mesmo tendo,  e sofrendo modificações por traduções, por sentidos...significantes e ou significados, como o diria o russo Vygotsky, ainda assim um pouquinho de mim, viaja até você. Um pouquinho de mim, há de compor você, agora e talvez para sempre. 
       Não sei se em razão do título do blog, uma coisa muito estranha e interessante está acontecendo, hoje vendo as visualizações notei um acréscimo muito grande de pessoas que estão acessando o blog de outros países. Fiquei deslumbranda, é claro. Quero saber quem são vocês todos. Quero conhecê-los. Vejam os números se não são merecedores deste texto charmoso: Até agora, no Brasil, trezentas e quarenta pessoas acessaram o blog, tive dezenove visitantes da União Soviética (Google tradutor, não me passe vergonha, seja bonzinho comigo aí...), dos Estados Unidos, foram dezoito pessoas; na Alemanha, foram nove; Croácia, três acessos. Da Malásia, dois acessos, e da Bélgica e de Portugal tive um acesso de cada país. Esses dois últimos suponho saber quem são.
        Vamos pensar. Afora os enganos que são totalmente previsíveis...os acasos, os acessos às páginas que não se quer; tem gente lendo o blog. Quero saber quem é, quero conhecer. Parece tolo, mas é importante. Quando alguém atira  uma garrafa de mensagem ao mar, imagina que alguém vai encontrá-la. Faz planos desse encontro. Imagina o navegante que irá tomá-la em suas mãos e até consegue experimentar a expressão surpresa que essa pessoa terá. Se minha linguagem for condizente com a sua, só resta a interpretação. É só a semântica. Se forem idiomas diferentes, muito da poesia será roubado na tradução. Mas a essência da beleza de escrever e de ler, essas; se calarão em nós. A isso, acolheremos mansinho dentro da gente. A mensagem que será lida sublinearmente é maior, é de ser humano para ser humano. E isso se fará de forma tão mágica que até o mais rude animal com esta nossa garrafa na mão; há de se "perceber" humano.
         Para conhecer você...preciso de recadinhos. De comentários no blog, e se quer fazê-los o meu e-mail é: lelucadf@gmail.com
         

sábado, 29 de setembro de 2012

Caminho nos caminhos...labirintites


                 

       E se a vida for realmente esse labirinto fazendo de cada escolha um caminho que não leve à saída, mas leve ao caminhar, apenas.  Também pode a vida ser um labirinto em que o mote é realmente, achar a porta de saída.
       Há pessoas que deixam essa vida sem achar suas saídas por optarem pelo “labirintear”, por que não? Ora arriscam um caminho só para deixar o outro anterior, e acertam. Ora “riscam” um caminho que supõe ser a saída e erram. Outros ainda, nem traçam caminhos, optam pelo primeiro e se veem fora do labirinto.  Há aqueles que estudam estrategicamente o rumo, se norteam e saem. Outros calculam, tentam, se enchem de esperanças e se perdem das saídas. 
       Pessoas há; que vão por outros caminhos julgados inexistentes, mas reais a elas. O caminho do imaginário, da fantasia, da alucinação e dos delírios. Uma forma de não aceitação do caminhar real. Saem do labirinto pela parte de cima, voam dele envoltos por um filó transparente, finíssimo, tão singular e tão sensível... Usam do imaginário para contrapor às imposições recebidas e causadoras de suas aflições. Desfilam seus sofrimentos por uma tangente desconhecida e opaca para quem se vê do outro lado; até desinteressante para os que se veem no caminhar ponderado. Essas pessoas andam desatentas, desenfreadas, descuidadas e soltas, às vezes voam num “para sempre” e outras vezes ficam como presas libertas. Do lado de fora, mas sobrevoando o labirinto todo tempo. São importantes na composição do labirinto porque se expõem extremamente, são hipérboles. Exemplificam outras formas. E aqui adéquo um neologismo: “sincerizam” mais que as outras.
        Todas são formas de viver, “labirintintivas”. Quem sabe é feliz pelo despreendimento, quem se liberta do labirinto usando o recurso do voar dele. Ou é feliz quem por coragem e ousadia, “labirinteia” a vida toda, arriscando o labirintear.  E o quanto deve se encher de vaidade aquele que acerta o primeiro caminho; ou ainda quem depois de inúmeras e sofridas tentativas consegue se livrar do labirinto. Pode ainda se ver muito recompensado, quem meticulosamente e com toda demora dos projetos, planejou sua saída e conseguiu na primeira tentativa. E quão sortudo se vê aquele que nada fez, andou e encontrou por acaso, o lugar por onde se sai. O labirinto como se vê; é o lugar do estar; da expectativa ou não, da iniciativa ou não, do sofrer e do ser feliz, mais ainda: de se reconhecer caminhante e de conhecer o caminhante que se é.
        Daí a importância do que diz Carl Jung: “Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Máscara




"Em vão a mulher veste a máscara, continua sempre mulher, ou seja,    louca.
É este dom da loucura que lhes permite ser, em muitos aspectos, mais felizes que os homens.
"
     (Erasmo de Rotterdam)      

            

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pro dia ficar feliz...



Esse poeta sabe das coisas...




"A verdadeira arte de viajar...
 A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
 Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
 Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
 Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!"

                     

Mário Quintana




domingo, 9 de setembro de 2012

Minha casa em meu lugar



 
         Rodei o trinco amarelo de ferrugem e empurrei a porta desconfiada, devagarinho. Pela primeira vez em minha vida entrei circunspecta ali. Pisei pé por pé e percorri a sala vazia. Fui a cada um de seus cantinhos. O vazio dali enchia meus olhos. Pisava na poeira fina e em alguns toquinhos de madeira esparramados pelo chão. Recoloquei nosso sofá amarelo creme, o televisor, a mesinha ao lado do sofá com os livros de meu pai, pus ali até o cinzeiro dele. Sentia o cheiro das guimbas. Via a estante cheinha de livros perto da poltrona.
       Quis mais, Entrei no nosso quarto, meu e de minha irmã. Até o cheirinho da roupa de cama limpíssima eu senti. Veio junto o cheiro do mofo de quando era inverno. Chovia dias e dias sem parar, naquele sudeste goiano. Nosso guarda-roupa de tão grande nos permitia toda bagunça possível. Nosso material de escola, nosso espelho de ver gente pequena. Nossa vida. Nem sempre tão interessante, mas sempre colorida pelos matizes da infância que  nos traz tanta esperança. Corri para o quarto de minha mãe, pela primeira vez ela não responde ao meu pedido de socorro. Que saudade! Sempre à mão o "help" dela; fiquei habituada. A cama grande onde pulávamos e caímos, exaustos. A porta do quarto dos meninos estava encostada. Empurrei. As dobradiças rangiram de velhas. Senti vontade de pegar no colo meu irmão pequeno. Meu irmão maior, o parceiro. Uma espécie de "supereu" meu. Mais ou menos o que Freud diz que dá o "juízo" pra gente. Ele era a cara do juízo. Sempre ponderado. A cama do meu irmão era séria. Até os brinquedos do meu irmão tinham um jeito sério. 
       Fui mais. Entrei na cozinha. Nossa mesa, nosso fogãozinho a gás, nosso fogaozão à lenha. A porta da cozinha de duas folhas. É assim que se diz, duas folhas. Aquelas que o trinco aferrolha as duas faces e fecha no meio do portal, ou melhor ainda; aquela que o trinco abre as duas partes e a gente fica logo de  frente para o pé de pêssego do quintal, pela manhã. E corre para o balanço, e sente o cheirinho dos cítricos do lugar. Então; a porta estava lá, igualzinha. O mesmo ferrolho. Não resisti. Abri o trinco e fechei os olhos para sentir meu quintal. O quintal mais lindo do mundo. O meu. O pé de pêssego, nosso balanço de corda, o trieirozinho que leva ao pé de manga. O pé de goiabas vermelhas. A poça d' água que se formava debaixo dele. A área. O banheiro da área. A cisterna. Tínhamos cisterna. Que nome é esse cis-ter-na? O balde, a carretilha, o murinho. No murinho, o trincado onde o cimento rachou, remendado. Os tanques ali perto da caixa d'água. Redondões, grandões, Como o mundo era grande no meu quintal. Acho que era por isso que eu cantava tanto. 
       Abri os olhos diante de um mundo mais cru. De plantas secas no quintal, da casa vazia, do cheiro de pó e a sensação de sentir uma vala sob os pés. É que a casa da minha infância havia sido destruída. Ela só existe aqui dentro de mim.  
       
         
 

 


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Todos nós



                                    

 Um ser humano
 Dois sermos humanos
 Bilhões de seremos humanos...